«Para se voltar a levantar o país, é precisa vontade.
(Sacrifícios feitos pelo povo, haja ou não vontade de os fazer, uma vez que
eles se atacam decididamente aos salários e subsídios, às horas
extraordinárias, a tudo quanto possam deitar as mãos.
O exercício da vontade depende das mesmas leis. Não há
vida moral um tanto elevada, sem uma certa dose de sacrifícios, mesmo que eles
sejam exagerados, como acontece hoje em dia em Portugal. Mas estes quem os
exige ainda, embora como adestramento?
Longe de tornar a vida mais fácil, será preciso, pelo contrário, aumentar a austeridade, as dificuldades, pois esse habituar-se ao esforço é a mais segura garantia do futuro. Os políticos no actual governo português, são uns líricos.
E não são – confeso-o – as ocasiões que faltam, uma vez
que além de serem incompetentes para governar, mas não para se governarem, e
aos seus amigos, o que se teme hoje em dia é aproveitá-las – às ocasiões – e obrigar
a cidadania a um certo grande dispêndio de energia, que é o único remédio à sua
debilidade moral.
Desde o levantar matinal até ao deitar-se á noitinha, em quantas negligências foram os cidadãos pegados, não sem serem vexados, simulando serem por eles orientados.
Seria preciso desobedecer sem motivo, é excelente
garantia contra essa espécie de abdicação da vontade, que se chama capricho de
políticos radicais e incompetentes.»
Lastimai-vos da desobediência dos cidadãos, que ontem
vos brindaram com “um hino à liberdade”, cantando-vos gratuitamente, na
Assembleia da República, a canção «Grandola Vila Morena», de José Afonso e que
foi o sinal de saída dos quarteis dos militares que fizeram a Revolução dos
Cravos, a 25 de Abril de 1974. Bem hajam por terem livrado Portugal da ditadura
de meio século de salazarismo/marcelismo.
Ontem, aquelas pessoas que assim se manifestaram na Casa
da Democracia, sem termer sanções, obedeceram às ordens da presidente da AR,
saindo voluntariamente do hemiciclo, perfilando-se na escadaria e ali cantando
a Grandola Vila Morena, o que pode ser um bom presságio quer parra Portugal
quer para os portugueses.
Prova de que se pode contar com a abnegação da cidadania
nas grandes coisas, nos grandes momentos, podendo deixar adivinhar grandes
momentos de revolta por parte dos portugueses que, ligados ou não às forças
políticas da esquerda, farão com que Portugal e os seus políticos regressem ao
bom caminho, desviando-se do imposto “deus” capital, que tem causado a
corrupção sempre crescente nas hostes detentoras do capitalismo selvagem, a
quem obedecem os políticos, pretendendo também que o povo se ajoelhe perante
eles.
A azáfama da vida quotidiana, as ocupações, a ausência de
um lar, não têm deixado, frequentemente, criar aquele elo de ligação entre o
ser e o querer do nobre povo português.
Mas, o misericordioso tempo tudo fará para que se consiga
voltar a criá-lo e se possa mostrar aos políticos hoje dominantes, o caminho do
olho da rua, que deve ser o seu lugar de eleição.


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