Os males que nos afligem não estão, todos eles,
analisados aqui; seria senão impossível, pouco provável poder fazê-lo tão
resumidamente. Não importa.
Apenas quero indicar os principais: sejam eles de ordem
intelectual, moral ou religiosa, resumem-se todos num só, e dele emanam, como de uma fonte: a
facilidade do “clima” em que vivemos, e do qual morremos, se não tomarmos
cuidado.
Aliás, é isso que nós, cidadãos, constatamos todos os
dias: os casos mais benignos – se os há – tornam-se graves, e mesmo desesperados, porque, por falta de
exercícios, de adestramento, de automatismos apropriados, os espíritos dos mais
jovens não mais possuem estrutura, nem intelectual, nem moral, nem religiosa.
Basta dizer que é preciso voltar àqueles exercícios,
áquele adestramento, àqueles automatismos. É esse o único remédio eficaz.
Reclamar-se-á, talvez, da severidade. Mas é de
severidade, sobretudo, que temos necessidade urgente, não da austeridade com
que nos brindam os governantes, que a não aplicam a eles próprios e a seus
amigos, que se compreenda isso, pois, de uma vez por todas.
Ou então que se abstenham de nos exigir que paguemos os roubos por outros cometidos e se mantêm impunes e imunes à justiça.
Sob a forma de “pedidos” para resolver casos difíceis, se
não estão preparados para aceitar, para si mesmo e para outrém, um determinado
estilo de vida que inclui, como ponto principal, o heroísmo.
Entendamo-nos: não um heroísmo manifesto e turbulento,
mas, ao contrário, uma certa força de alma oculta, que exige, ao mesmo tempo,
muita inteligência – porque é preciso dirigir o esforço ao ponto desejado – e enorme
energia – porque esse esforço será, necessariamente, de longa duração.
Trata-se, muito simplesmente, de arrancar a cidadania do
seu meio e das taras do seu meio, de fazê-la enfrentar a si mesma, de a
obrigar, se necessário – e assim tem sido – a renunciar a essa atonia mortal,
que a impede de ver o perigo e dele se preservar.
Foi assim que se criaram todos os actuais problemas em
Portugal.
E de forma alguma o seria, se todas as forças vivas, com
as quais se poderia contar no momento da dificuldade não tivessem sido
enfraquecidas por uma ambiência muito frouxa e muito complacente.
Como único remédio, a demissão de semelhantes governantes
que nos têm conduzido ao mais profundo abismo desde que vivemos em democracia, e mesmo, segundo alguns, desde os
tempos da ditadura salazarista.

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