Se quisermos colocar a questão num nível de
garotada, foi o PSD que começou. É verdade
que o Governo, o PSD e o líder de ambos não mostraram o sentido de Estado
necessário à manutenção minimamente coesa do arco de três
partidos que assinou o memorando. Durante meses o PS mostrou esse sentido de
compromisso, vendo por resposta uma enorme arrogância do PSD. Paulo Portas
compreendeu isso bem, como se viu no debate da moção de censura.
Porém, se quisermos colocar as coisas no
presente (e ser um pouco menos garotos, embora tendo presente que o passado
conta), a resposta do PS ao pedido de colaboração do
Governo foi tudo menos inteligente e foi tudo menos operativa. O Governo
vive um momento de enorme fraqueza, de fragilidade extrema - isso é mais do que
visível. E perante isso, o PS poderia dar-lhe o conhecido (na política) e velho 'abraço de urso'. Ao invés,
permite ao Governo prosseguir na sua linha e armar-se em vítima. Seguro é de
facto, como
disse, o seguro de Passos .
O velho e conhecido 'abraço de urso'
consistiria em Seguro ter dito tudo o que disse, deixando
claro que isso seriam as condições para o PS colaborar com o Governo. Ou seja, o
PS colaboraria desde que houvesse uma renegociação da dívida (na qual o PS
participaria); desde que o Governo se empenhasse na restituição dos ganhos do
BCE com a dívida portuguesa (mais de três mil milhões); desde que houvesse uma
linha de apoio aos desempregados, etc. etc. Todas as medidas de que falou o
líder do PS. Exigindo respostas concretas, proporia, na prática, uma alteração
radical da política do Governo.
Ao
querer marcar, simplesmente, uma linha de demarcação Seguro perdeu a
oportunidade de colocar-se a si e ao seu partido, no centro da resolução do
atual impasse. Pelo contrário, pareceu contribuir para
esse mesmo impasse. Mais: ao adiar a sua reação um dia (para depois da 'missa'
de Sócrates) deu também a ideia de que teme o seu antecessor; ao copiar frases
inteiras que Sócrates tinha dito, sublinha a ideia de que não lhe quer
desagradar. Do meu ponto de vista, a intervenção de
Seguro foi um desastre. E é pena. Porque Seguro tem sido um líder que sem
aqueles momentos grandiloquentes que certa esquerda gosta, eficazmente
construiu a ideia de uma alternativa que não passa por irresponsabilidades.
Mas a vida é o que é. E entre nós, salvo
raras exceções, os políticos ainda pensam que falar mais alto é ter razão e que
ser duro é ser corajoso. Também aqui falta maturidade.
=Expresso=

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