O empresário António Sousa foi um dos portugueses
"pioneiros" que há 60 anos emigraram para o Canadá e diz que o que
mais lhe custou foi ter de deixar "a caneta" para pegar "na pá e
na picareta".
"Após 40 anos de ditadura de Salazar, ainda fui
acusado de ser comunista, por isso decidi aventurar-me", começa por
explicar o empresário de 87 anos.
O emigrante chegou ao porto de Halifax a 13 de Maio de
1953. Eram 218 emigrantes, com os respectivos vistos autorizados por ambos os
governos.
Viajaram no navio Saturnia e António Sousa deixa para
trás a Nazaré natal e a vida de estudante para "meter mãos à obra".
Daí a metáfora de que trocou "a caneta e o lápis" em Portugal por
"uma pá e picareta" no Canadá.
Estudante do curso comercial da Escola Bordalo Pinheiro das Caldas da Rainha, António Sousa confessa que não foi difícil
arranjar trabalho. Após ter feito o pedido de visto, com a ajuda de um amigo em
Montreal, um dia após chegar ao continente americano, arranjou trabalho na
província do Labrador, como "ajudante de cozinha".
Com o lema "se tens doze, não gastes dez",
nove meses depois chegou à conclusão que Toronto, a actual "capital"
económica canadiana, seria o "local ideal" para se implantar.
"Quando cheguei a Toronto, tinha dinheiro
suficiente para comprar uma casa, mas só me vendiam se comprasse três, o que
teve de ser", recorda.
Em Toronto, abriu o primeiro restaurante português,
começou a importar produtos de Portugal e da Europa, fundou a primeira colectividade
portuguesa, o First Portuguese, e também criou o Rancho Folclórico da Nazaré,
em 1956.
"A educação é a nossa arma", foi a mensagem
que quis transmitir aos seus filhos, Júlio e Charles, que optaram por áreas
diferentes em termos profissionais, o primeiro, pela educação, é professor, o
segundo, pela economia, é hoje ministro das Finanças do governo do Ontário.
"Eles são óptimos trabalhadores e estudantes,
pois ensinei-lhes que quando se trabalha com dedicação, com o coração, com
força, nunca se perde", explica.
"Quando não se faz algo bem, aprende-se, para
que, na próxima vez, se faça de maneira diferente, 'quem respeita é
respeitado', e 'nunca semeies cardos à espera de colher rosas'", são
filosofias de vida que António Sousa diz ter passado para os seus filhos.
O seu pensamento no "amanhã" está sempre
presente.
Com seis netos, o "pioneiro" decidiu abrir uma conta
bancária para que eles possam frequentar a universidade com tranquilidade,
tendo o futuro garantido.
Os pioneiros da emigração para o Canadá, há 60 anos,
decorrente de um acordo entre os dois países, vão ser homenageados numa gala, a
11 de maio, que deverá contar com a presença do secretário de Estado das
Comunidades, José Cesário, e do ministro das Finanças do Ontário, Charles
Sousa, filho de António.
No dia 12 de Maio, decorrerá uma homenagem no
"Monumento dos Pioneiros" no High Park, inaugurado em 1978, quando se
comemoraram 25 anos da emigração portuguesa).
António Sousa diz que aquela geração que chegou à
América em 1953 "contribuiu para o desenvolvimento da imigração dos
portugueses no Canadá".
"Somos iguais a todas as outras comunidades, mas
individualmente somos diferentes" considera.
Na altura, os portugueses "eram muitos
respeitados, quer pelas entidades oficiais, quer, por exemplo, próprios
bancos".
Hoje, diz, os portugueses continuam por isso a ser
respeitados, mas há excepções.
Porque "nem todos são iguais", conclui.
Lusa/Sol

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