Desse egoísmo primordial decorreram todas as nossas falhas, que
provocaram todas as nossas derrotas.
Do egoísmo, por exemplo, é que proveio a nossa cegueira intelectual.
Que pensávamos, sem confessá-lo, aliás?
É verdade o que está conforme ao interesse pessoal; é falso o que
resulta da hipótese contrária.
Ora, há uma infinidade de princípios, de ideias, de teorias
perfeitamente exactas e racionalmente comprovadas, e que, entretanto, longe de
nos favorecer no que quer que seja, contradizem, ao contrário, o nosso
interesse restrito.
É assim, por exemplo, que, por cegueira de espírito, não sabemos
discernir o alcance de determinadas reivindicações sociais, que não ousavamos
elaborar um plano que lhes prevenisse os excessos.
Faltava-nos inteligência para compreender os outros, toda voltada que
estava a apreender-nos a nós mesmos, a nós e aos nossos.
Pois o que era essa inteligência, que nos esforçávamos por desenvolver
nos outros? Uma faculdade que elabora e prepara a acção útil a todos?
Um meio – digamos a palavra – de apostolado? Um meio que servisse a um
fim social?
De forma nenhuma. Era, na maioria das vezes, e sem que o soubessemos,
ou uma faculdade cultivada por si mesma, pelo encanto que traz e pelo
embelezamento pessoal que acarreta, ou então um indispensável meio de trabalho,
quando se trata de agir, de trabalhar por si, pelos seus, pela famosa “carreira”
e sacrossanta “posição”.
Porque se pensa que o senhor Pedro tanto mentiu e continua a proferir
inverdades, a proporcionar tremendos sacrifícios aos cidadãos, senão para
tentar criar um marco na sua suposta governança?
Porque se imagina que não tem paciência para aturar Paulo Portas no seio
da coligação, e muito menos Seguro e o PS? Não que empecilhos que o trasladem
para uma espécie de marginalidade política, pois sabe que qualquer deles o “abafa”
do ponto de vista intelectual e também do ponto de vista político.
A vida, a sua suposta vida intelectual, em lugar de ser social, foi uma
fonte de satisfação pessoal, ou o meio de uma obra que não ia além de nós
mesmos, de si próprio.
É por isso que nem a burguesia, nem seus filhos, puderam compreender o
que não era deles mesmos ou não resultava deles mesmos.
Daí a consequência suplementar: o que se elaborava sem eles,
elaborava-se, também, contra eles.
Da cegueira intelectual nasce a esterilidade da acção. Deve-se entender
por isso, não a ausência de acção, que é inactividade e preguiça, mas a acção
que não tem nenhum alcance social, portanto inútil.
Na casta burguesa o trabalho é indispensável e logo desgasta o homem.
Mas a verdade é que ele aí se exaure na perseguição da mais louca das quimeras,
quero dizer, o bem individual e egoísta.
Fazer o quê mais, com efeito, se a inteligência, inteiramente votada
para o enriquecimento pessoal, não entrevê sequer a necessidade urgente de uma
acção solidária? De que modo o devotamento, a “gratuitidade” encontrariam lugar
nessa vida?
E no entanto é isso que, desejando-o explicitamente, muito comummente
tentam ensinar-nos, ou melhor, impor-nos, uma especialidade do senhor Pedro e
seus seguidores, que cada dia que passa serão cada vez menos, vindo dentro em
breve a encontrar-se só na multidão.

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