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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

«TEORIA DO DESTINO»


Certos povos, como o russo e o espanhol, encontram-se de tal modo assombrados por si próprios, que se erigem em único problema: o seu desenvolvimento, singular em todos os aspectos, obriga-os a debruçarem-se sobre a sua sequência de anomalias, sobre o milagre ou a insignificância da sua sorte.

As primícias literárias da Rússia foram, no século XIX, uma espécie de apogeu, de sucesso fulgurante que não podia deixar de a perturbar; era natural que a Rússia fosse uma surpresa para si própria e que exagerasse a sua própria importância.

As personagens de Dostoiewski põem-ma em pé de igualdade com Deus, uma vez que o modo de interrogação aplicado a Deus, tais personagens aplicam-no à Rússia: deveremos acreditar na Russia? Deveremos negá-la? Existirá ela realmente ou não passará de um pretexto?

Proceder a estas interrogações é colocar em termos teológicos um problema local.

Mas, justamente, para Dostoiewski, a Rússia, longe de ser um problema local, é um problema universal, ao mesmo título que a questão da existência de Deus.

Tal modo de pensar, abusivo e bizarro, só era possível num país cuja evolução anormal chegava para maravilhar ou desconcertar os espíritos.

Imaginamos com dificuldade um inglês perguntar-se se a Inglaterra tem ou não sentido, ou atribuir-lhe, á força de retórica, uma missão: o inglês sabe que é inglês, e isso basta-lhe.

A evolução do seu país não implica uma interrogação essencial.

Nos russos, o messianismo deriva de uma incerteza interior, agravada pelo orgulho, por uma vontade de afirmar as próprias taras, de as impor aos outros, de descarregar neles uma suspeita demasiado pesada.

A aspiração a “salvar” o mundo é o fenómeno mórbido da juventude de um povo.

O mérito da Espanha consiste em propor um tipo de desenvolvimento insólito, um destino genial e inacabado. (Dir-se-ia um Rimbaud encarnado numa colectividade.)

Pense-se no frenesim de que deu provas na sua corrida ao ouro, na sua queda no anonimato, pense-se depois nos conquistadores, no seu banditismo e na sua piedade, no modo como associaram o evangelho e o crime, o crucifixo e o punhal.

Nos seus mais belos momentos, o catolicismo foi sanguinário, como convém a toda a religião verdadeiramente inspirada.

Falar de Portugal? Para quê, se todos sabem que grassa em si a corrupção e o neo-micro-fascismo?

Se assim não fosse, há muito que o actual governo estaria com dono, ou seja, demitido, se algum dia tivesse tomado posse.

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