Certos povos, como o russo e o espanhol, encontram-se de
tal modo assombrados por si próprios, que se erigem em único problema: o seu
desenvolvimento, singular em todos os aspectos, obriga-os a debruçarem-se sobre
a sua sequência de anomalias, sobre o milagre ou a insignificância da sua
sorte.
As primícias literárias da Rússia foram, no século XIX,
uma espécie de apogeu, de sucesso fulgurante que não podia deixar de a
perturbar; era natural que a Rússia fosse uma surpresa para si própria e que
exagerasse a sua própria importância.
As personagens de Dostoiewski põem-ma em pé de igualdade com Deus, uma vez que o modo de interrogação aplicado a Deus, tais personagens aplicam-no à Rússia: deveremos acreditar na Russia? Deveremos negá-la? Existirá ela realmente ou não passará de um pretexto?
Proceder a estas interrogações é colocar em termos
teológicos um problema local.
Mas, justamente, para Dostoiewski, a Rússia, longe de ser
um problema local, é um problema universal, ao mesmo título que a questão da
existência de Deus.
Tal modo de pensar, abusivo e bizarro, só era possível
num país cuja evolução anormal chegava para maravilhar ou desconcertar os
espíritos.
Imaginamos com dificuldade um inglês perguntar-se se a
Inglaterra tem ou não sentido, ou atribuir-lhe, á força de retórica, uma
missão: o inglês sabe que é inglês, e isso basta-lhe.
A evolução do seu país não implica uma interrogação
essencial.
Nos russos, o messianismo deriva de uma incerteza interior, agravada pelo orgulho, por uma vontade de afirmar as próprias taras, de as impor aos outros, de descarregar neles uma suspeita demasiado pesada.
A aspiração a “salvar” o mundo é o fenómeno mórbido da
juventude de um povo.
O mérito da Espanha consiste em propor um tipo de
desenvolvimento insólito, um destino genial e inacabado. (Dir-se-ia um Rimbaud
encarnado numa colectividade.)
Pense-se no frenesim de que deu provas na sua corrida ao
ouro, na sua queda no anonimato, pense-se depois nos conquistadores, no seu
banditismo e na sua piedade, no modo como associaram o evangelho e o crime, o
crucifixo e o punhal.
Nos seus mais belos momentos, o catolicismo foi sanguinário, como convém a toda a religião verdadeiramente inspirada.
Falar de Portugal? Para quê, se todos sabem que grassa em
si a corrupção e o neo-micro-fascismo?
Se assim não fosse, há muito que o actual governo estaria com dono, ou seja, demitido, se algum dia tivesse tomado posse.

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