A
Contra-Reforma situa-se num período histórico em que se verifica o surgimento
de uma classe de intermediários entre a produção e o consumo, pela concentração
de poderes económicos na coroa, pela crescente circulação monetária e o
incremento do crédito bancário; Portugal recebe o ouro da Mina e explora
internacionalmente as especiarias.
A
delapidação económica justifica a espoliação dos bens dos judeus e
cristãos-novos, de forma a manter a posição social hierárquica da Igreja e
proteger uma aristocracia militar adjunta à realeza.
Nos meados
do século XVI, a perda de importantes praças norte-africanas, que viria a
consumar-se no desastre de Alcácer Quibir, resultou na reunião das coroas
portuguesa e espanhola sob os Absburgos.
Portugal
sofre todas as vicissitudes relativas às disposições do Concílio de Trento,
ordenado por Paulo III, e ao movimento político-social daí resultante: a
Contra-Reforma.
Esta fase
política caracteriza-se pela luta hegemónica entre os monopólios de exploração
colonial das nações europeias católicas, obedecendo à Igreja, e protestantes,
autoras do movimento reformista, que, com Lutero, criticou severamente o
atavismo eclesiástico e fomentou a queda do regime feudal em prosseguimento dos
ideiais renascentistas.
A
Contra-Reforma é então um fenómeno histórico de cariz fundamentalmente
religioso, em que a Igreja procurou rever a sua posição no mundo da ideologia,
da política e da teologia, minada pelos sucessivos ataques do protestantismo,
que alastrou conjuntamente com um surto manufactureiro e as consequentes novas
concepções económicas.
O Império
espanhol (ao qual Portugal foi anexado de 1580 a 1640) conhece então o que se
chama o “movimento da Contra-Reforma”.
A criação
da Inquisição, contrariando o desiderato de Roma, e a supremacia religiosa da
Companhia de Jesus são os aspectos mais relevantes entre nós.
Os jesuítas
entregam-se à missionação ultramarina e a uma implacável condenação de qualquer
forma de pensamento anticatólico.
Da inovação humanista do século XVI a Contra-Reforma adopta a filosofia tomista e considera os textos sagrados, as Sagradas Escrituras, e a tradição da Igreja de Roma como definidores universais e exclusivos do conceito de dogma cristão. Alguns teólogos celebrizaram-se pela sua intervenção no Concílio de Trento, entre os quais se pode salientar Frei Bartolomeu dos Mártires.
Por certo,
a chamada Contra-Reforma moldou de maneira radical o poder da Igreja e
consolidou o catolicismo em Portugal, até hoje perdurável.
Na arte e
na cultura foi também distinto o contra-reformismo: considera-se comummente que
o barroco é a arte da Contra-Reforma, mas pensadores contemporâneos, entre os
quais avbulta Eugénio d’Ors, vêem em Portugal a origem verdadeira do barroco,
situando-a no estilo manuelino, que antecedeu a Contra-Reforma em meio século.
Na
literatura, a profusão de ornamentos estilísticos caracteriza uma forma plena
de redundância, não raro inspirada no modelo espanhol coevo. Na música, a fuga
e o contraponto são os principais elementos estruturantes, bem como o recurso a
timbres hiperemotivos.
Pode
todavia afirmar-se que o período barroco e o da Contra-Reforma não são
historicamente coincidentes, já que o barroco se prolongou até ao século XVIII,
quando o espírito da Contra-Reforma declinava a partir dos meados do século
XVII.
A
filosofia assume uma concepção energética, dinâmica, onde o misticismo patético
se alia a uma obsessão irracionalista e onde os valores de uma filosofia
tomista se confundem nas reminiscências medievas.
Muito
diferentemente, a ciência evoluiu e ganhou foros de universalidade e rigor que
a observação e o conhecimento empírico do planeta autorizaram.
A
astronomia emancipou-se da mitologia e a mecânica fundamentou um novo
conhecimento tecnológico.

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