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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

«CONTRA-REFORMA EM PORTUGAL»


A Contra-Reforma situa-se num período histórico em que se verifica o surgimento de uma classe de intermediários entre a produção e o consumo, pela concentração de poderes económicos na coroa, pela crescente circulação monetária e o incremento do crédito bancário; Portugal recebe o ouro da Mina e explora internacionalmente as especiarias.

A delapidação económica justifica a espoliação dos bens dos judeus e cristãos-novos, de forma a manter a posição social hierárquica da Igreja e proteger uma aristocracia militar adjunta à realeza.

Nos meados do século XVI, a perda de importantes praças norte-africanas, que viria a consumar-se no desastre de Alcácer Quibir, resultou na reunião das coroas portuguesa e espanhola sob os Absburgos.

Portugal sofre todas as vicissitudes relativas às disposições do Concílio de Trento, ordenado por Paulo III, e ao movimento político-social daí resultante: a Contra-Reforma.

Esta fase política caracteriza-se pela luta hegemónica entre os monopólios de exploração colonial das nações europeias católicas, obedecendo à Igreja, e protestantes, autoras do movimento reformista, que, com Lutero, criticou severamente o atavismo eclesiástico e fomentou a queda do regime feudal em prosseguimento dos ideiais renascentistas.

A Contra-Reforma é então um fenómeno histórico de cariz fundamentalmente religioso, em que a Igreja procurou rever a sua posição no mundo da ideologia, da política e da teologia, minada pelos sucessivos ataques do protestantismo, que alastrou conjuntamente com um surto manufactureiro e as consequentes novas concepções económicas.

O Império espanhol (ao qual Portugal foi anexado de 1580 a 1640) conhece então o que se chama o “movimento da Contra-Reforma”.

A criação da Inquisição, contrariando o desiderato de Roma, e a supremacia religiosa da Companhia de Jesus são os aspectos mais relevantes entre nós.

Os jesuítas entregam-se à missionação ultramarina e a uma implacável condenação de qualquer forma de pensamento anticatólico.

Da inovação humanista do século XVI a Contra-Reforma adopta a filosofia tomista e considera os textos sagrados, as Sagradas Escrituras, e a tradição da Igreja de Roma como definidores universais e exclusivos do conceito de dogma cristão. Alguns teólogos celebrizaram-se pela sua intervenção no Concílio de Trento, entre os quais se pode salientar Frei Bartolomeu dos Mártires.

Por certo, a chamada Contra-Reforma moldou de maneira radical o poder da Igreja e consolidou o catolicismo em Portugal, até hoje perdurável.

Na arte e na cultura foi também distinto o contra-reformismo: considera-se comummente que o barroco é a arte da Contra-Reforma, mas pensadores contemporâneos, entre os quais avbulta Eugénio d’Ors, vêem em Portugal a origem verdadeira do barroco, situando-a no estilo manuelino, que antecedeu a Contra-Reforma em meio século.

Na literatura, a profusão de ornamentos estilísticos caracteriza uma forma plena de redundância, não raro inspirada no modelo espanhol coevo. Na música, a fuga e o contraponto são os principais elementos estruturantes, bem como o recurso a timbres hiperemotivos.

Pode todavia afirmar-se que o período barroco e o da Contra-Reforma não são historicamente coincidentes, já que o barroco se prolongou até ao século XVIII, quando o espírito da Contra-Reforma declinava a partir dos meados do século XVII.

A filosofia assume uma concepção energética, dinâmica, onde o misticismo patético se alia a uma obsessão irracionalista e onde os valores de uma filosofia tomista se confundem nas reminiscências medievas.

Muito diferentemente, a ciência evoluiu e ganhou foros de universalidade e rigor que a observação e o conhecimento empírico do planeta autorizaram.

A astronomia emancipou-se da mitologia e a mecânica fundamentou um novo conhecimento tecnológico.

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