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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

«COMOÇÃO COM A EUROPA»























Quando recapitulo os méritos da Europa, comovo-me com ela e arrependo-me de a difamar; quando, pelo contrário, enumero as suas fraquezas, a raiva abala-me.

Desejo então que ela desapareça o mais depressa possível e que a sua recordação se extinga por completo.

Mas, de outras vezes, evocando quer os seus títulos de glória quer as suas vergonhas, não sei para que lado me inclinar: amo-a com  remorso, amo-a com  ferocidade, e não lhe perdoo por me ter encurralado entre sentimentos entre os quais não posso escolher.

Se ao menos eu pudesse contemplar com indiferença a delicadeza, os prestígios das suas chagas!

Propus-me o jogo de ruir com ela, e fui apanhado nas malhas desse jogo. A graça que foi dela, e de que conserva ainda alguns vestígios, nenhum esforço me pareceu demasiado grande para a possuir, para a reviver, para perpetuar o seu segredo.

Em vão! – um homem das cavernas sufocado em rendas…

O espírito é vampiro. Quando ataca uma civilização, deixa-a prostrada, desfeita, exausta, sem o equivalente espiritual do sangue; despoja-a da sua substância, bem como desse impulso que a arrastava a actos e escândalos de envergadura.

Presa de um processo de deterioração, nada a distrai; essa civilização oferece-nos a imagem dos perigos que corremos, e o esgar do nosso futuro: é o nosso vazio, é nós descobrirmos nela as nossas insuficiências e os nossos vícios, a nossa vontade vacilante e os nossos instintos pulverizados.

O medo que ela nos inspira, medo de nós próprios!

E se, tal como ela, jazemos prostrados, desfeitos, exaustos, é porque conhecemos e sofremos igualmente o vampirismo do espírito.

Ainda que eu jamais tivesse adivinhado o irreparável, uma olhadela à Europa bastaria para me fazer estremecer.

Preservando-me do vago, ela justifica,atiça e adula os meus terrores, e desempenha para mim a função atribuída ao cadáver na meditação do monge.

No seu leito de morte, Filipe II mandou chamar o filho e disse-lhe:

«Vê como tudo acaba, até a monarquia.»

À cabeceira da Europa não sei que voz me adverte: «Vê como tudo acaba, até a civilização!»

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