Quando recapitulo os méritos da Europa, comovo-me com ela
e arrependo-me de a difamar; quando, pelo contrário, enumero as suas fraquezas,
a raiva abala-me.
Desejo então que ela desapareça o mais depressa possível e que a sua recordação se extinga por completo.
Mas, de outras vezes, evocando quer os seus títulos de
glória quer as suas vergonhas, não sei para que lado me inclinar: amo-a
com remorso, amo-a com ferocidade, e não lhe perdoo por me ter
encurralado entre sentimentos entre os quais não posso escolher.
Se ao menos eu pudesse contemplar com indiferença a
delicadeza, os prestígios das suas chagas!
Propus-me o jogo de ruir com ela, e fui apanhado nas
malhas desse jogo. A graça que foi dela, e de que conserva ainda alguns
vestígios, nenhum esforço me pareceu demasiado grande para a possuir, para a
reviver, para perpetuar o seu segredo.
Em vão! – um homem das cavernas sufocado em rendas…
O espírito é vampiro. Quando ataca uma civilização,
deixa-a prostrada, desfeita, exausta, sem o equivalente espiritual do sangue;
despoja-a da sua substância, bem como desse impulso que a arrastava a actos e
escândalos de envergadura.
Presa de um processo de deterioração, nada a distrai;
essa civilização oferece-nos a imagem dos perigos que corremos, e o esgar do
nosso futuro: é o nosso vazio, é nós descobrirmos nela as nossas insuficiências
e os nossos vícios, a nossa vontade vacilante e os nossos instintos
pulverizados.
O medo que ela nos inspira, medo de nós próprios!
E se, tal como ela, jazemos prostrados, desfeitos,
exaustos, é porque conhecemos e sofremos igualmente o vampirismo do espírito.
Ainda que eu jamais tivesse adivinhado o irreparável, uma
olhadela à Europa bastaria para me fazer estremecer.
Preservando-me do vago, ela justifica,atiça e adula os
meus terrores, e desempenha para mim a função atribuída ao cadáver na meditação
do monge.
No seu leito de morte, Filipe II mandou chamar o filho e disse-lhe:
«Vê como tudo acaba, até a monarquia.»
À cabeceira da Europa não sei que voz me adverte: «Vê
como tudo acaba, até a civilização!»

Sem comentários:
Enviar um comentário