Desconhecido
até agora entre os seres humanos, o novo vírus é instável e continua a evoluir,
revela análise dos dados genéticos disponíveis.
O novo
vírus da gripe que veio das aves foi detectado nos humanos em Março
O novo vírus da gripe das aves que já matou 14 pessoas na China
ainda continua a evoluir, o que dificulta o trabalho dos cientistas na previsão
de quão perigoso irá tornar-se. Os peritos em gripe dizem que provavelmente a
estirpe H7N9 ainda está a trocar genes com outras estirpes, seleccionando
aqueles que poderão torná-lo mais apto. Se for bem-sucedido, o mundo poderá ter
de enfrentar a ameaça de uma mortífera pandemia da gripe. Também pode dar-se o
caso, no entanto, de falhar e desaparecer simplesmente.
Ou seja, o
vírus continua instável e essa instabilidade levanta questões sobre se o H7N9
irá tornar-se resistente a fármacos antivirais como o Tamiflu, uma
possibilidade já sugerida pela análise dos dados genéticos disponíveis até
agora.
“Mesmo só com as sequências
disponíveis de três genes, há algumas provas de que um deles não tem muito a
ver com os outros dois. Por isso, pensamos que o vírus ainda anda à procura de
uma constelação genética com a qual fique contente”, diz a virologista Wendy
Barclay, do Imperial College de Londres. “Talvez haja outros vírus por aí com
que esteja a trocar genes até ter uma constelação estável.”
Para poder dizer com certeza que
esta nova estirpe, nunca vista nos humanos até Março, pode evoluir e causar uma
pandemia, os cientistas precisam de saber mais.
Tripla
mistura
Para já, as sequências de amostras recolhidas em três vítimas do H7N9, que foram disponibilizadas no site Global Initiative on Sharing All Influenza Data(GISAID), mostram que a estirpe é de um vírus de “combinação tripla”, com uma mistura de genes de três outras estirpes de vírus da gripe encontradas em aves na Ásia.
Para já, as sequências de amostras recolhidas em três vítimas do H7N9, que foram disponibilizadas no site Global Initiative on Sharing All Influenza Data(GISAID), mostram que a estirpe é de um vírus de “combinação tripla”, com uma mistura de genes de três outras estirpes de vírus da gripe encontradas em aves na Ásia.
Na edição da revista
norte-americana New
England Journal of Medicine, da semana passada, equipa de Rongbao
Gao, do Instituto Nacional para o Controlo e Prevenção das Doenças Virais da
China, analisou em detalhe a origem do vírus e conclíu que, até agora,
parece que a combinação de genes do H7N9 ocorreu quando ele se encontrava
nas aves ou em qualquer outro mamífero, mas não nos humanos – um sinal que, de
alguma forma, é tranquilizador.
Wendy Barclay diz que é possível
esta combinação de genes continuar e pode significar que demorará algum tempo
até o vírus encontrar uma forma em que se consiga disseminar rápida e
eficazmente nas populações de aves. Por agora, as análises genéticas mostram
que o vírus adquiriu algumas mutações que tornam mais provável a sua
disseminação entre mamíferos e capaz de iniciar uma pandemia humana.
Um estudo no jornal online Eurosurveillance,
levado a cabo pelos especialistas Yoshihiro Kawaoka, da Universidade do
Wisconsin, nos Estados Unidos, e Masato Tashiro, do Instituto Nacional das
Doenças Infecciosas em Tóquio, Japão, concluiu que as sequências do H7N9 “têm
várias características típicas dos vírus da gripe dos mamíferos, que são
susceptíveis de contribuir para a sua capacidade de infectar os humanos”. Estas
características “suscitam preocupações em relação ao seu potencial pandémico”,
escreveram os cientistas.
Este receio foi admitido pela
Organização Mundial de Saúde (OMS), neste sábado, referindo que “são
preocupantes mudanças genéticas observadas em vírus H7N9, sugerindo uma
adaptação aos mamíferos”. E alertou: “Podem ocorrer mais adaptações.”
Potencial
pandémico
Embora os peritos estejam relativamente tranquilos pelo facto até agora não haver provas de que o H7N9 se transmita de pessoa para pessoa – o que aumentaria drasticamente o seu potencial pandémico –, o desconhecimento de como 60 e tal pessoas ficaram infectadas por esta estirpe também os deixa pouco tranquilos.
Embora os peritos estejam relativamente tranquilos pelo facto até agora não haver provas de que o H7N9 se transmita de pessoa para pessoa – o que aumentaria drasticamente o seu potencial pandémico –, o desconhecimento de como 60 e tal pessoas ficaram infectadas por esta estirpe também os deixa pouco tranquilos.
“Sabemos que os vírus H7 podem
passar para os humanos. Para mim, a coisa mais importante a descobrir agora é
de que espécie o H7N9 está a passar”, diz An Osterhaus, chefe de virologia do
Centro Médico Erasmus da Holanda. “É de uma só espécie? É de diferentes
espécies? Nesta altura, falta-nos muitos dados.”
An Osterhaus considera que uma
vigilância apertada das aves selvagens, como patos e codornizes, e de aves de
capoeira, como frangos, bem como de mamíferos bem conhecidos por hospedarem
vírus da gripe como os porcos, deverão permitir encontrar respostas.
Recentes vírus pandémicos –
incluindo o vírus da “gripe suína” H1N1, de 2009-2010 – têm uma mistura de
vírus da gripe de mamíferos e das aves. Os peritos dizem que estes híbridos têm
mais probabilidade de ser suaves, porque a gripe dos mamíferos tende a tornar
os humanos menos doentes do que a gripe aviária. Geralmente, as estirpes puras
da gripe das aves – como a nova H7N9 e a H5N1, que matou 371 pessoas entre as 622
que infectadas desde 2003 – são mais letais para as pessoas. A pior pandemia
conhecida, a gripe espanhola de 1918, que matou mais de 50 milhões de pessoas
em todo o mundo, foi causada por um vírus da gripe das aves que adquiriu
mutações que permitiram a sua disseminação eficiente entre os humanos.
David Heymann, perito em gripe e
director do Centro sobre Segurança da Saúde da Chatham House, uma organização
não governamental com sede em Londres, com a missão de promover a compreensão
de temas internacionais, considera importante colocar a descoberta do H7N9 nos
humanos no contexto das capacidades científicas actuais. Nos anos seguintes ao
surto da síndrome respiratória aguda grave (SARS, na sigla inglesa), na China
em 2003, diz ainda David Heymann, tem sido dada mais atenção à detecção e à
notificação de infecções respiratórias parecidas com as da gripe na Ásia e por
todo o mundo. A SARS matou uma em cada dez pessoas, entre as 8000 infectadas em
todo o mundo.
Quanto mais os cientistas
procuram, acrescenta este especialista, mais provável é encontrarem vírus que
são potencialmente ameaçadores. Mas também pode ser como ocorrências que, no
passado, surgiram tão depressa como desapareceram sem terem sido sequer
apanhadas pelo radar da vigilância da gripe. Tendo dito isso, David Heymann
considera que esta não é altura para se ficar descansado. “Os vírus da gripe
são sempre muito instáveis. Qualquer mutação é aleatória, por isso ninguém
consegue prever quando irá acontecer. É preciso estar sempre atento.”
=Público=
PS: Talvez
que um dia se venha a saber ter sido tudo manipulado laboratorialmente, só para
vender mais medicamentos, como aliás se comprovou com o virus H1N1.

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