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segunda-feira, 4 de março de 2013

«SENHOR PEDRO»


O meu fito era preveni-lo contra a Seriedade, contra esse pecado que nada resgata. Em contrapartida, gostaria de lhe propor a futilidade.

Ora – para quê dissimulá-lo? – a futilidade é a coisa mais difícil do mundo, quero eu dizer a futilidade consciente, adquirida, voluntária. Na minha presunção, esperava chegar a ela através da prática co cepticismo.

Este, no entanto, adapta-se ao nosso carácter, segue os nossos defeitos e as nossas paixões, ou até as nossas loucuras; pessoaliza-se. (Há tantos cepticismos como temperamentos).

A dúvida fortifica-se com tudo o que a infirma ou a combate; é um mal no interior de um outro mal, uma obsessão dentro da obsessão.

Se o senhor Pedro se puser a rezar, ela alcança as alturas da oração; imitará igualmente, embora vigiando-os ao mesmo tempo, os seus delírios; até em plena vertigem o senhor duvidará vertiginosamente.

Assim, abolir a seriedade é coisa que o cepticismo por si próprio não consegue; e também não o consegue, infelizmente, a poesia, todo o seu lirismo.

Quanto mais envelheço, mais me dou conta de ter contado de mais com ela.

Amei-a à custa da minha saúde; pensava sucumbir no meu culto por ela. Poesia! Lirismo! Esta palavra que, por si só, me fazia outrora imaginar mil universos já s´ó desperta no meu espírito uma imagem de ruído e de nulidade, de mistérios fétidos e de afectações.

É justo acrescentar que cometi o erro de conviver com um bom número de poetas. Com algumas excepções, eram inutilmente graves, enfatuados ou odiosos, também eles monstros, especialistas e, ao mesmo tempo, mártires e torcionários do adejctivo; o seu diletantismo, a sua clarividência e sensibilidade para o jogo intelectual era eu capaz de ultrapassar.

A futilidade não passaria de um “ideal”?

É de temer que sim, mas nunca me resignarei a que assim seja. Sempre me surpreendo a dar certa importância às coisas, incrimino o meu cérebro, desconfio dele e suspeito de uma falha sua, de uma sua depravação.

Tento arrancar-me a tudo, elevar-me à força de desenraizamento; para nos tornarmos fúteis, temos que cortar com as nossas raízes, que nos transformarmos metafisicamente em estrangeiros.

 Não foi o senhor Pedro quem deu o recado aos portugueses para que emigrem, se querem ter uma vida melhor? Pois, porque não começa por dar o exemplo, levando consigo todos os seus mais directos seguidores e todos os mentirosos que lhe fazem companhia?

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