O meu fito era preveni-lo contra a Seriedade, contra esse
pecado que nada resgata. Em contrapartida, gostaria de lhe propor a futilidade.
Ora – para quê dissimulá-lo? – a futilidade é a coisa
mais difícil do mundo, quero eu dizer a futilidade consciente, adquirida,
voluntária. Na minha presunção, esperava chegar a ela através da prática co
cepticismo.
Este, no entanto, adapta-se ao nosso carácter, segue os
nossos defeitos e as nossas paixões, ou até as nossas loucuras; pessoaliza-se.
(Há tantos cepticismos como temperamentos).
A dúvida fortifica-se com tudo o que a infirma ou a combate; é um mal no interior de um outro mal, uma obsessão dentro da obsessão.
Se o senhor Pedro se puser a rezar, ela alcança as
alturas da oração; imitará igualmente, embora vigiando-os ao mesmo tempo, os
seus delírios; até em plena vertigem o senhor duvidará vertiginosamente.
Assim, abolir a seriedade é coisa que o cepticismo por si
próprio não consegue; e também não o consegue, infelizmente, a poesia, todo o
seu lirismo.
Quanto mais envelheço, mais me dou conta de ter contado
de mais com ela.
Amei-a à custa da minha saúde; pensava sucumbir no meu
culto por ela. Poesia! Lirismo! Esta palavra que, por si só, me fazia outrora
imaginar mil universos já s´ó desperta no meu espírito uma imagem de ruído e de
nulidade, de mistérios fétidos e de afectações.
É justo acrescentar que cometi o erro de conviver com um
bom número de poetas. Com algumas excepções, eram inutilmente graves,
enfatuados ou odiosos, também eles monstros, especialistas e, ao mesmo tempo,
mártires e torcionários do adejctivo; o seu diletantismo, a sua clarividência e
sensibilidade para o jogo intelectual era eu capaz de ultrapassar.
A futilidade não passaria de um “ideal”?
É de temer que sim, mas nunca me resignarei a que assim
seja. Sempre me surpreendo a dar certa importância às coisas, incrimino o meu
cérebro, desconfio dele e suspeito de uma falha sua, de uma sua depravação.
Tento arrancar-me a tudo, elevar-me à força de
desenraizamento; para nos tornarmos fúteis, temos que cortar com as nossas
raízes, que nos transformarmos metafisicamente em estrangeiros.


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