Qualquer se admirará ao saber que ele só procede assim
por ter adoptado uma atitude bastante estranha relativamente aos seus inimigos.
Explico-me. Quando estamos em maré de eficácia, sabemos
que os nossos inimigos não podem impedir-se de nos colocar no centro da sua
atenção e dos seus interesses.
Preferem-nos a si próprios, levam a peito os nossos
trabalhos.
Cabe-nos a nós ocupar-nos deles, velar pela sua saúde,
como pelo seu ódio, única coisa que nos permite conservar algumas ilusões a
nosso respeito.
Eles salvam-nos, pertencem-nos, são nossos. Mas relativamente aos seus inimigos, o falhado reage de outra maneira.
Sem saber como conservá-los, acaba por se desinteressar
deles, por os minimizar, por já não os levar a sério.
Desprendimento de grandes consequências. Em vão tentará
mais tarde relançá-los, despertar neles a mais pequena centelha de curiosidade
pela sua pessoa, suscitar a sua indiscrição ou a sua raiva; em vão tentará
fazê-los apiedarem-se do seu estado, fazê-los alimentar ou atear de novo o seu
rancor.
Não tendo ninguém contra quem se afirmar, encerrar-se-á
na sua solidão e na sua esterilidade. Solidão e esterilidade que eu muito
prezava nesses vencidos, responsáveis, repito-o, pela educação de um povo.
Entre outras coisas, revelaram as ingenuidades inerentes
ao culto da Verdade…
Nunca esquecerei o alívio que senti quando ela deixou de
ser a minha preocupação.
Senhor de todos os erros, podia enfim explorar um mundo
de apar~encias, de enigmas ligeiros. Nada mais a perseguir a não ser a
perseguição do nada.
A Verdade? Mania de adolescentes ou sintoma de
senilidade. Todavia, por um resto de nostalgia ou por necessidade de
escravidão, continuo ainda a procurá-la inconscientemente, estupidamente.
Um instante de desatenção basta para me fazer cair de
novo sob o império do mais antigo, do mais irrisório dos preconceitos.
Destruo-me, de acordo; entretanto, neste clima asmático criado pelas convicções, num mundo de oprimidos, respiro; respiro à minha maneira.
Um dia – quem sabe? – talvez você venha a conhecer este
prazer de visar uma ideia, de disparar sobre ela, de a ver jacente, para depois
recomeçar o exercício com outra, com todas as ideias; esta vontade de nos
debruçarmos sobre um ser, de o afastarmos dos seus antigos apetites, dos seus
antigos vícios, para lhe impormos outros novos, mais nocivos, para o vermos
enfim perecer; de nos precipitarmos contra uma época ou contra uma civilização,
de nos virarmos em seguida contra nós próprios, supliciarmos as nossas recordações
e as nossas ambições, e de, arruinando o próprio fôlego, emprestarmos o ar para
melhor sufocarmos… um dia, talvez você conheça esta forma de liberdade, esta
forma de respiração que é a libertação de nós próprios e de tudo.
Então poderá comprometer-se seja com o que for sem
precisar de lhe dar a sua adesão.

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