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segunda-feira, 4 de março de 2013

«A ATRACÇÃO PELAS MÁS NOTÍCIAS»


Existe uma espécie de humor mórbido em nós, que faz atrair e impulsiona o ser humano a ler, assistir e conversar sobre notícias negativas.

Como é evidente, os órgãos de informação apreóveitam-se desse mesmo sentimento para captar as audiências causadas por esses sentimentos negativos e todos esses montes de más notícias, de entre as quais poucas ou nenhumas trazem bem-estar, esperança ou mesmo uma só mensagem positiva.

Quase não existem programas culturais nas televisões e, arrisco mesmo a afirmar que 70 a 80% das notícias saídas se referem a factos negativos e o restante ao futebol nacional e estrangeiro.

Os jornais diários, na sua maioria, estão sob o domínio de uma certa censura interna, em que o papel dos jornalistas se vê diminuído a uma insignificância ignóbil, pois hoje em dia existem grupos económicos que se chamam mass média – segundo dizem – e que dominam a comunicação social no país. Infelizmente isso não se passa apenas em Portugal, mas um pouco por toda a parte, Europa ou América do Norte mas também na do Sul, o quew inevitavelmente causa tristeza e indignação.

O padrão é similar em todas as estações televisivas, rádios, jornais locais ou de abrangência nacional. Muitas pessoas pensam que a culpa é da média que escolhe esse tipo de notícias. Entretanto, vê-se que o problema é mais profundo. A televisão vive de audiências e, se as pessoas se não interessam tanto por esse tipo de notícias negativas, os jornais teriam de melhorar ou de mudar o que ela veicula.

A televisão passa nos ecrãs o que as pessoas se sentem atraídas a assistir. Notícias sobre tragédias costumam render dias, semanas de notícias. Passam exaustivamente nos telejornais, são comentadas em programas de auditório, de boateiros ou ainda de debate, e as pessoas, algumas pessoas gostam de assistir.

Se algum canal resolver veicular um telejornal com 90% de notícias negativas, terá, provavelmente, uma audiência demasiado baixa. Vemos programas de melhor qualidade em canais alternativos, com públicos específicos com audiência muito menor. Não adianta colocar a culpa na média, pois só permanece no ar aquilo que a população aprova através da sua audiência.

O mais importante de tudo é entendermos o que leva os seres humanos a sentir atracção por tanta negatividade. Essa é a razão pela qual estou a falar sobre este assunto. Não para culpar as televisões ou o público, mas sim, para compreender o que está por trás desse fenómeno social.

A negatividade atrai-nos devido ao facto de estarmos cheios de coisas negativas dentro de nós,. Pensamentos, crenças, emoções armazenadas do passado, sentimentos de tristeza, medo, mágoa, raiva e outros que acumulamos durante a vida, passam a viver no nosso interior, formando uma nuvem sombria. Essa sombra procura fortalecer-se. Um dos mecanismos pelos quais ela cresce, é através das notícias negativas que alimentam as emoções que guardamos.

Como se não bastassem os problemas, tragédias e perdas que temos nas nossas vidas pessoais, que nos causam já suficiente dor, acabamos por absorver o sofrimento de outras pessoas desconhecidas. Isso ajuda a elevar os níveis de stress, pessimismo, pánico e depressão da população e não ajuda em nada as pessoas que viveram este ou aquele drama. Pelo contrário: Quanto mais infelicidade individual é gerada, mais aumentam os níveis de infelicidade colectiva. A negatividade é contagiosa. Ajuda-se mais a humanidade quando nos sentimos mais felizes. O único propósito dessas notícias é alimentar a sombra.

Nas tragédias de interesse ancional, que devem ser veiculadas para gerar aprendizagem e mudança na sociedade, haverá ainda uma intensa exploração de toda a reacção emocional que causam, o que também alimenta a sombra.

Perceber essa força inconsciente, que nos leva a ir em busca de coisas negativas, é muito importante. Quando começamos a ver o mecanismo em acção, sabendo que serve apenas para causar sofrimento, fica mais fácil despertar e escolher algo melhor. Enquanto estamos cegos, sem perceber que estamos a agir guiados pela sombra, é muito mais difícil mudar o comportamento.

Alémda percepção da acção da sombra, é mais importante ainda curar a negatividade. Quanto mais nos libertarmos de emoções, pensamentos e sentimentos negativos acumulados,  menor será a nossa atracção por notícias negativas ou qualquer coisa que sirva para alimentar o sofrimento.

Será isso que pretendem os governos? É claro que não, e por isso nomeiam gestores que dêem continuidade a todas as sombras televisivas e jornalísticas ou radiofónicas.

Sinto uma forte consideração pelos jornalistas, lamentando que devam sujeitar-se a essa espécie de censura interna, pois como seres humanos pretendem também guardar os seus postos de trabalho, seu ganha-pão.


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