É melhor manifestar a dor ou reprimi-la?
Para muitos especialistas, dar livre expressão aos
sentimentos é essencial para enfrentar e ultrapassar a dor. Pensam que a
repressão das emoções e a atitude de autodomínio podem traduzir-se,
posteriormente, em problemas psicológicos.
Na tragédia de Shakespeare, Macbeth, quando Macduff toma
conhecimento do assassíno da mulher e dos filhos, uma das personagens
aconselha-o: “Dá largas à tua tristeza. A dor que não é manifestada abafa o
coração sobrecarregado e despedaça-o.”
Por vezes, as pessoas sentem-se incomodadas com as
expressões de dor habituais nos funerais.
Escreve o psiquiatra Colin Murray Parkes: “Existe um ‘padrão
de dor’ individual que varia de pessoa para pessoa. Uns choram e soluçam,
outros tornam-se apáticos, outros ficam irritáveis; cada pessoa vive de maneira
diferente os seus sentimentos.”
É difícil saber o que dizer ou fazer em presença da dor.
Algumas pessoas hesitam em falar da pessoa que morreu (…),
e até os médicos sentem dificuldade em lidar com as emoções dos familiares de
um doente que morre.
Podem receitar sedativos para atenuar o choque, mas nem
sempre estes paliativos são bem recebidos.
Certas expressões ditas com intenção de consolar têm às
vezes um efeito contrário: “Hás-de acostumar-te à ideia” ou “Sei o que sentes”,
pouco podem significar para uma pessoa que enfrenta o choque de uma perda
querida.
Um abraço ou um gesto de carinho podem, por vezes, ajudar
mais do que as palavras.
Muitas vezes, o melhor apoio possível é dado pela nossa
presença, pelo auxílio nas coisas práticas e, acima de tudo, pela
disponibilidade para ouvir as pessoas manifestarem a sua revolta, a sua
tristeza ou outros sentimentos profundos, por vezes inesperados e injustos,
como, por exemplo, viverem a morte lenta do seu país, às mãos de verdugos
insensíveis que se limitam à prática de austeridade, de cortes e mais cortes de
salários, de benefícios sociais adquiridos arduamente e à custa de muita luta.
Mostrarmos a nossa tristeza pode também ajudar. Um jovem desempregado, um casal em que ambos os cônjuges ficam sem emprego , os filhos que pedem de comer, de vestir, de uma vida dentro dos parâmetros da dignidade humana, e recebem do governo o mais ruidoso silêncio, ou até uma resposta que traduz toda a arrogância que rege os governantes acéfalos como os actuais em Portugal.
Olho com tristeza, mas também com revolta, é verdade,
para o meu país. Que vejo? O horror estampado nos rostos dos cidadãos, e, do
outro lado, as faces rosadas e bem tratadas dos políticos dominantes, que
preferem alhear-se de como vivem aqueles que levantaram e enalteceram, lutaram
pelo seu país, dando a sua contribuição para que pudesse ser autónomo e
livre, que passaram pelas masmorras
pidescas, enquanto eles, actuais governantes, se limitavam a viver cobardemente,
porque o que dali adviesse, eles seriam simplesmente beneficiados e como
sempre, favorecidos.
Por isso luto e sinto-me de luto pelo meu país, não sem
aquela dor – e talvez por ela – de saber que o estão a vender a retalho, como
gozando aqueles que deram tudo para construir o que eles hoje destroem e
colocam nas mãos de amigos ou de estrangeiros, só para fazer valer o seu poder,
destrutivo, mas também sentindo o prazer cínico e sádico de fazerem sofrer quem
ama verdadeiramente o pequeno rincão de uma nefasta e obsoleta Europa globalizada,
que se limita a obedecer a ordens de Frau Merkel, ouvindo de vez em quando
certas palavras de alguém que, como eles mentiu ao mundo só para conseguir um
bom lugar em Bruxelas, colaborando com um americano que se sentia sedento do
sangue iraquiano.
Por ti luto, por ti me visto de luto, querido Portugal!

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