Antigamente,
morte era um acontecimento relativamente simples: ocorria quanto os
batimentos cardíacos e a respiração paravam. Actualmente, algumas pessoas cujo
coração e pulmões deixaram de funcionar são reanimadas e mantidas vivas durante
dias e até anos.
Nos dias de hoje, quando morre alguém, a quem uma esmagadora maioria
considerava um “sacana, um indesejável, alguém que agia sempre contra os altos
interesses da «Nação»”, os mesmos que o criticaram anteriormente, de imediato o
passam a considerar como tendo sido alguém de grandes méritos académicos,
económico-financeiros, alguém que sempre se distinguiu pela sua sabedoria e pelo
seu relacionamento social – que tinha sido péssimo relativamente ao povo – ou seja,
fica demonstrado cabalmente que, com a sua morte, passou de besta a bestial.
Morreu António Borges, aquele que fez arrepiar
os cabelos, aliás todos os pêlos do corpo de milhões de portugueses, com as
suas atitudes e palavras, frases que demonstravam na perfeição o que ele
pensava acerca do nobre e martirizado povo português.
Mas ontem, dia em que entregou a alma ao
Criador, se algum dia conseguiu ter alma lusitana digna, diversas foram as
pessoas que com ele tiveram sérios problemas e que entenderam por bem
vir-se mostrar, fazendo afirmações nada
condizentes com o que tempos antes tinham dito sobre ele.
Ora, não fazendo parte desse grupo de
hipócritas, tudo o que antes afirmei acerca desse “senhor” o mantenho,
descrevendo-o como um bom “sacana”, um indivíduo que não pode merecer e
consideração da maioria dos portugueses, que viveu num mundo totalmente alheio ao
sofrimento do povo, tratando quem o criticava de estúpido, fazendo afirmações
do género: “Seria impensável que essas pessoas passassem no meu primeiro ano de
economia!”, pois só ele sabia e possuía a capacidade de compreender e entender
o que de melhor podia e devia ser feito pelo país e seu povo mártir.
Um homem, seja ele quem for, que assim pensa
e o diz agressivamente, como ele o fez nas televisões, não pode, de modo algum,
merecer todos os elogios que lhe foram ontem rasgados e que hoje voltarão a
sê-lo, sobretudo pelos que considerou estúpidos.
E, veja-se: esse “prodígio da natureza”, esse “ultra-inteligente”,
esse “sábio único”, acabou também ele morto, sem poder, com todas as suas
virtudes e todos os seus defeitos, como qualquer outra pessoa, como afinal
acabamos todos quando a morte nos bate à porta.
Morte que alguns pretende redimir,
redimindo-se de tudo quanto dele disseram em tempos, através de duras críticas,
tecendo hoje rasgados elogios a esse bestial tipo que, se tivesse podido, nos
teria posto a pão e água com toda a sua inteligência e sabedoria.
Devido a toda essa hipocrisia que sempre
existe numa gama social nacional, será de admirar que nos mantenhamos na cepa
torta e sem vislumbrar qualquer esperança relativamente ao presente e ao
futuro?
Deverá ser cremado por desejo expresso, o que
poderá ser uma tranquilidade para alguns, pois dele não restarão que cinzas,
depositadas num recipiente.
E, uma vez mais, este povo sofredor sentirá
no seu íntimo aquela espécie de “satisfação” e agradecerão a Deus que não
castiga com pau nem acha, mas que dá de modo que racha. E, António Borges,
rachou definitivamente.
E se, na sua clemência imensa Deus lhe
perdoar todos os seus pecados, deveremos curvar-nos diante Dele em respeito
pela Sua vontade.
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