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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

«PREZADOS CONCIDADÃOS»

Quiseram as circunstâncias que estivessemos em condições de observar o comportamento dos políticos no poder, e sobretudo os que pertencem exclusivamente àquela burguesia da qual tanto mal se fala e que, tão frequentemente o merece.

Conhecemos-lhe as qualidades e os defeitos, Por isso é que me permito dirigir-me especialmente a ela, não por desconsideração, e menos por desprezo, a outras classes sociais, mas porque, beneficiário e vítima da inevitável lei da especialização, não ousaria falar senão do que todos temos observado e estudado. É preciso uma boa dose de ingenuidade para se julgar apto a aconselhar tudo e todos.

E a tarefa assim concebida e assim precisada, não é bastante? O estatuto, e mais ainda, a própria existência da burguesia são, a cada dia mais o serão, submetidos à discussão pública.

Ela só se salvará – se já não for muito tarde – reformando-se profundamente, radicalmente, nos seus descendentes. Que ela se deixe levar, como o tem feito muito até aqui, por aquela comodidade de espírito e aquela frouxidão da vontade, que a puseram á beira da ruína – e desaparecerá, enquanto elite, para ser envolvida e perdida na grande tormenta, cujas manifestações e consequências ninguém pode prever.

Além disso, aquele que se abandona, atraiçoa-se a si próprio. Trai, além disso, os seus, a classe ou a casta a que pertence e que o fez o que é; trai todo o corpo social.

Haverá sempre uma elite. Mas, é de desejar que aqueles que a constituem sejam dignos dela. Que ninguém se arrogue esse direito, senão adquirindo um valor pessoal, ao mesmo tempo intelectual, moral, social e político, para quantos estejam submetidos à sua influência e à sua autoridade.

Somos, todos nós, feitos de tal maneira, que desejamos estar protegidos contra o risco. Ora, o risco é uma das constantes da acção, e, procuramos receitas.

E porque elas provaram bem, em determinados casos, creio, ingenuamente, que são sempre infalíveis.

Revoltamo-nos, como de um embuste, quando constatamos que a vida exige de nós um espírito constantemente em vigília e voltado para a invenção.

Tudo recomeça, sem fim, mas de maneira sempre diferente. Cada caso que solicita a nossa atenção é um caso específico, e tanto pior, para nós e para os outros, se a nossa fraqueza de espírito, o nosso instinto de comodidade nos incitam a tratá-lo como um caso conhecido, classificado, catalogado, etiquetado e pouco susceptível de oferecer qualquer surpresa.

Or, hoje, em política, tudo é surpresa. Tudo é sempre novo, porque jamais há duas almas exactamente semelhantes.

E se é verdade, por exemplo, que todo o homem tem uma inteligência e uma sensibilidade, não existem dois que possuam inteligência e sensibilidade similares, ou mesmo análogas.

Se, por consequência, se quer agir eficazmente e com durável profundidade sobre esses dois homens, será preciso renunciar de uma vez por todas às considerações abstractas e aceitar as dificuldades de análise oferecidas pelo concreto, repudiando-o totalmente.

Será conveniente renunciar, em definitivo, aos cartões e aos relatórios, para se lançar deliberadamente na vida, na bela vida toda nova, toda fremente de ardor e sempre renovada.

Será preciso aceitar o risco e inventar sempre uma medicação específica para casos específicos e renunciar, resolutamente, à ideia absurda que um homem é uma entidade ideal, e que basta enunciar alguns princípios teóricos, logicamente deduzidos, para os fazer mudar definitivamente.


A luta será árdua, mas unidos, acabaremos por vencer.

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