Quiseram as circunstâncias que estivessemos
em condições de observar o comportamento dos políticos no poder, e sobretudo os
que pertencem exclusivamente àquela burguesia da qual tanto mal se fala e que,
tão frequentemente o merece.
Conhecemos-lhe as qualidades e os defeitos,
Por isso é que me permito dirigir-me especialmente a ela, não por
desconsideração, e menos por desprezo, a outras classes sociais, mas
porque, beneficiário e vítima da inevitável lei da especialização, não ousaria
falar senão do que todos temos observado e estudado. É preciso uma boa dose de
ingenuidade para se julgar apto a aconselhar tudo e todos.
E a tarefa assim concebida e assim precisada,
não é bastante? O estatuto, e mais ainda, a própria existência da burguesia
são, a cada dia mais o serão, submetidos à discussão pública.
Ela só se salvará – se já não for muito tarde –
reformando-se profundamente, radicalmente, nos seus descendentes. Que ela se
deixe levar, como o tem feito muito até aqui, por aquela comodidade de espírito
e aquela frouxidão da vontade, que a puseram á beira da ruína – e desaparecerá,
enquanto elite, para ser envolvida e perdida na grande tormenta, cujas
manifestações e consequências ninguém pode prever.
Além disso, aquele que se abandona,
atraiçoa-se a si próprio. Trai, além disso, os seus, a classe ou a casta a que
pertence e que o fez o que é; trai todo o corpo social.
Haverá sempre uma elite. Mas, é de desejar
que aqueles que a constituem sejam dignos dela. Que ninguém se arrogue esse
direito, senão adquirindo um valor pessoal, ao mesmo tempo intelectual, moral,
social e político, para quantos estejam submetidos à sua influência e à sua
autoridade.
Somos, todos nós, feitos de tal maneira, que
desejamos estar protegidos contra o risco. Ora, o risco é uma das constantes da
acção, e, procuramos receitas.
E porque elas provaram bem, em determinados
casos, creio, ingenuamente, que são sempre infalíveis.
Revoltamo-nos, como de um embuste, quando
constatamos que a vida exige de nós um espírito constantemente em vigília e
voltado para a invenção.
Tudo recomeça, sem fim, mas de maneira sempre
diferente. Cada caso que solicita a nossa atenção é um caso específico, e tanto
pior, para nós e para os outros, se a nossa fraqueza de espírito, o nosso
instinto de comodidade nos incitam a tratá-lo como um caso conhecido,
classificado, catalogado, etiquetado e pouco susceptível de oferecer qualquer
surpresa.
Or, hoje, em política, tudo é surpresa. Tudo
é sempre novo, porque jamais há duas almas exactamente semelhantes.
E se é verdade, por exemplo, que todo o homem
tem uma inteligência e uma sensibilidade, não existem dois que possuam
inteligência e sensibilidade similares, ou mesmo análogas.
Se, por consequência, se quer agir
eficazmente e com durável profundidade sobre esses dois homens, será preciso
renunciar de uma vez por todas às considerações abstractas e aceitar as
dificuldades de análise oferecidas pelo concreto, repudiando-o totalmente.
Será conveniente renunciar, em definitivo,
aos cartões e aos relatórios, para se lançar deliberadamente na vida, na bela
vida toda nova, toda fremente de ardor e sempre renovada.
Será preciso aceitar o risco e inventar
sempre uma medicação específica para casos específicos e renunciar,
resolutamente, à ideia absurda que um homem é uma entidade ideal, e que basta
enunciar alguns princípios teóricos, logicamente deduzidos, para os fazer mudar
definitivamente.
A luta será árdua, mas unidos, acabaremos por
vencer.

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