Associação dos Estabelecimentos de Ensino
Particular garante que não há nenhuma "revolução" no que é proposto
pelo ministério.
Pais querem a mesma autonomia para as escolas
públicas que os privados já têm
A proposta de revisão do estatuto do ensino particular e
cooperativo divulgada nesta quinta-feira pelo PÚBLICO está a suscitar várias
críticas. Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da Educação, lembra que a
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) já alertou
para os efeitos eventualmente perversos da generalização de medidas, como o
cheque-ensino, que garantem às famílias financiamento público quando estas
pretendem que os filhos estudem no ensino privado. Em alguns países que adoptaram
o modelo, diz, "aumentaram as desigualdades".
Mais: quem
beneficiou mais, acrescenta Paulo Guinote, autor do blogue A Educação do Meu
Umbigo, foram as melhores escolas e as famílias de classe média, não tendo
havido uma melhoria dos resultados dos alunos mais fracos.
Já o presidente da Confederação
Nacional das Associações de Pais (Confap), Jorge Ascenção, diz que o princípio
da liberdade de escolha é bom, mas que a avançar nos moldes propostos pelo
Ministério da Educação seria preciso garantir que as escolas públicas tinham
tanta autonomia para definir os seus projectos educativos como as privadas.
Isto para, de facto, concorrerem em igualdade de circunstâncias pelos alunos.
"Actualmente não é o que acontece. Não me recordo, por exemplo, de o ministério
ter ido aos colégios colocar entraves nas actividades de enriquecimento
curricular que eles oferecem. No público é o que acontece", diz Ascenção.
Rodrigo Queiroz e Melo, director
executivo da Associação dos Estabelecimentos de Ensino Particular (Aeep), diz
que a proposta do ministério de Nuno Crato, que está em cima
da mesa para ser debatida com os parceiros, não muda assim tanto o modelo que já
existe. "Não há aqui nenhuma revolução." Antes se define de forma
mais clara os diferentes tipos de contratos que o Estado pode estabelecer com o
ensino privado. A começar pelos contratos simples de apoio às famílias que,
lembra Queiroz e Melo, existem na lei desde os anos 1980 (Decreto Lei 553/80).
Esse diploma de 1980 previa a
atribuição de subsídios a alunos do privado e a redução das propinas. A forma
como esta norma foi sendo interpretada e regulamentada ao longo dos anos,
continua Queiroz e Melo, foi a de que apenas eram financiados os agregados com
baixos rendimentos que, querendo pôr os filhos num colégio, se candidatassem a
esse apoio. Na prática, diz, "o cheque-ensino existe desde os anos 1980,
só que nenhum Governo quis implementá-lo" tal qual ele podia ser
implementado à luz da lei.
Mais de 20
mil alunos apoiados
Em 2011, os contratos simples abrangiam quase 22.500 alunos — não garantiam a gratuitidade no ensino privado, mas faziam baixar os custos para as famílias com menos recursos. Agora, "a única coisa que muda é que se diz que o valor do apoio financeiro do Estado passa a ter como referência os custos das turmas no ensino público", diz Queiroz e Melo.
Em 2011, os contratos simples abrangiam quase 22.500 alunos — não garantiam a gratuitidade no ensino privado, mas faziam baixar os custos para as famílias com menos recursos. Agora, "a única coisa que muda é que se diz que o valor do apoio financeiro do Estado passa a ter como referência os custos das turmas no ensino público", diz Queiroz e Melo.
Mas na proposta de revisão do
estatuto dos privados diz-se ainda, expressamente, que podem beneficiar destes
contratos "todos os alunos do ensino básico e do ensino secundário não
abrangidos por outros contratos". E é neste "todos" que muitos
lêem: "generalização do cheque-ensino".
Queiroz e Melo explica que numa
primeira fase continuarão a ser os alunos carenciados os beneficiários, já que
as contas públicas do país não permitem actualmente aplicar o
"cheque" a toda a gente que pretenda beneficiar dele. "Mas assim
que for possível achamos que deve abranger todos." E o estatuto do ensino
particular, tal como agora está a ser proposto pelo ministério, permite-o.
Já a Federação Nacional de
Professores (Fenprof) emitiu um comunicado onde diz que "o Estado passará
a pagar às famílias, com o dinheiro dos impostos dos contribuintes, a tão
propalada liberdade de escolha de escola, independentemente de esta ser pública
ou privada". Uma situação que "a Fenprof rejeita liminarmente."
É "um passo no sentido do desmantelamento da escola pública e da privatização
do ensino", acusa.
A ex-ministra da Educação do
Governo liderado José Sócrates, Maria de Lurdes Rodrigues, também admite que o
diploma proposto pelo Governo seja uma porta aberta para a generalização do
cheque-ensino. E levanta sérias dúvidas a essa intenção.
As decisões sobre estas matérias
"não podem basear-se só em princípios ideológicos ou crenças", diz
Lurdes Rodrigues. Deve-se antes estudar "os resultados práticos" dos
modelos aplicados em outros países. E o que os estudos da OCDE mostram, sublinha,
é que a ideia de que com a generalização do cheque-ensino se aumenta a
liberdade de escolha das famílias "é uma ilusão".
Paulo Guinote tem estudado bem o
tema. "Uma coisa é o cheque-ensino para grupos de alunos mais carenciados.
O sistema dos vouchers nos Estados Unidos serviu para
isso", começa por dizer, e alunos que nunca poderiam pagar um bom colégio,
que se adequava mais às suas necessidades, passaram a poder escolher.
Outra coisa, continua Guinote, é a
universalização do modelo do cheque-ensino a todas as famílias. "Na
Suécia, o primeiro país a aplicar esse modelo, e depois na Dinamarca, o que
aconteceu foi um aumento da guetização das escolas" que já tinham piores
resultados, ao mesmo tempo que os colégios privados "passaram a
seleccionar ainda mais os alunos que entravam". Resultado: "As
melhores escolas melhoraram e as da base não".
Há ainda o risco de muitos alunos
continuarem simplesmente a não poder escolher. "A rede do ensino privado
não cobre o país todo." E o cheque-ensino nunca cobre todas as despesas de
frequentar um colégio.
Contactado pela TSF, fonte do
Ministério da Educação afirmou que com a proposta de alteração do regime do
ensino particular nada muda em relação às comparticipações do Estado para este
sector. A mesma fonte sublinha que o estatuto ainda não está fechado e as
propostas dos parceiros serão ponderadas.
=Público=

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