O cardeal de Florença, legado do papa
Clemente VII junto da corte portuguesa de 1596 a 1598, escrevia à Santa Sé: “Este
país que é governado muito mal, é verdadeiramente um milagre que possa
subsistir”
É um milagre que dure desde há séculos, com
altos e baixos, com períodos em que Portugal dominava e outros em que parecia
abatido. Na maioria das vezes abatido, sobretudo o povo que desde sempre tem
sido ignorado.
Houve um tempo em que a população de cerca de
dez milhões de habitantes, o seu império africano impaciente de escapar à sua
tutela, a sua indústria insuficiente para a despesa que envolvi a guerra, sem
bomba atómica face a forças enormes, não pode mais, não quer conhecer os seus
altos e baixos; mas, megalomanamente, os seus governantes teimam em roubar ao
povo, afirmando depois terem de convencer 27 mentalidades, para além das três
instituições internacionais financeiras.
É preciso aguentar firmemente!, tal como se
fazia antigamente, naquele passado em que a sua presença se sentia no mundo,
sem se saber muito bem como podia acontecer, já que a sua grandeza real estava
apenas na cabeça de alguns, que se imaginavam senhores de uma força brutal e
com uma predominância e glória ímpares no mundo, impondo tremendos sacrifícios
ao povo que era pouco mais que escravo.
Ao que parece, se o governo tem de convencer
27 mentalidades, a nossa incluída, que poderemos fazer para o convencer de que
as coisas não estão nada bem dentro de portas, que é preciso mude a sua
mentalidade e sinta respeito pelos portugueses.
Não se trata de solidão no mundo da
filosofia, da literatura, das artes, das ciências. Nós não estaremos sozinhos
quando na União Europeia, nessas conferências internacionais e políticas,
embora não possuamos a sabedoria nem a humanidade.
Ninguém, já o vimos, pode sacrificar tanto o
povo, talvez em recordação dos sacrifícios de outrora, como hoje obrigatórios,
apesar de apregoados “pedidos ao povo”, que se afunda cada vez mais na miséria.
Ficamos sós quando se trata dos nossos próprios interesses.
É preciso renunciar à “mania” ou ao “delírio
de grandeza”, mas também à solidão que fez adormecer o nobre povo português,
que tarda já demasiado em acordar para conquistar a grandeza e o universal amor
que engendra as obras imortais do espírito que não pode destruir nenhuma
Aljubarrota.
Apesar do peso da sua grandeza passada, apesar
das fraquezas presentes, apesar da sua solidão quando estão em causa os seus
bens materiais, Portugal pode e deve ser uma “grande nação”, combatendo cá
dentro os males que o arruinam, como a corrupção de alto nível, a injustiça bem
patente em determinadas decisões recentes acerca das eleiçõe autárquicas mas
também em casos considerados crimes de lesa pátria.
Esta ambição pode parecer, neste período tão
agitado um sonho insensato. Mas, é precisamente porque o mundo se encontra em
plena ebulição e que o homem vem de se tornar consciente de que não podemos
esperar pela véspera de tempos novos, em que Portugal poderá tornar-se grande
de novo, quando o “reino actual da força”, da desconfiança e do ódio terá sucedido
a uma era de falsa harmonia, um período em que já ninguém acredita em ninguém,
em que a classe política dedica demasiadas palavras e tempo a mentir ao povo,
mostrando amplos sorrisos e dentes bem tratados.

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