No centro de uma farsa de proporções
cósmicas, imprimimos ao universo os estigmas da nossa história, e para sempre
seremos incapazes dessa iluminação que convida a perecer tranquilamente.
Foi pelas nossas obras, e pelos nossos
silêncios, que escolhemos desaparecer: o nosso futuro lê-ser no riso grosseiro
dos nossos rostos, nas nossas fisionomias de profetas acabrunhados e activos.
O sorriso dos “deuses”, que mais não são que
humanos disfarçados de políticos, esse sorriso que paira sobre o mundo
português, não ilumina as nossas faces.
Quando muito, conhecemos a “felicidade”;
nunca a bem-aventurança, apanágio de civilizações assentes na ideia de
salvação, na recusa de saborear os seus males, de neles se comprazer; mas,
sibaritas da dor, rebentos de uma tradição masoquista, qual de nós hesitaria
entre o sermão de padre António Vieira ou um discurso de um político qualquer? “Sou
a ferida e o punhal”, eis o nosso absoluto, a nossa eternidade.
Quanto aos redentores, vindos até nós para
nosso maior dano, amamos a nocividade das suas esperanças e dos seus remédios,
a precipitação com que favorecem e exaltam os nossos males, o veneno que em nós
infundem as suas palavras de vida.
Devemos-lhes o facto de sermos mestres no
sofrimento sem saída!
Abandona-la-emos para nos refugiar-mos na
inconsciência? Qualquer pessoa pode salvar-se por meio do sono, qualquer pessoa
tem génio quando dorme.
Não há a menor diferença entre os sonhos de
um carniceiro e os sonhos de um político português.
Mas, a nossa clarividência não pode tolerar
que semelhante “maravilha” seja duradoura, nem que a inspiração fique assim ao
alcance de todos: o dia arrebata-nos os dons que a noite nos concede.
Só o louco possui o privilégio de passar sem
barreiras da existência nocturna para a existência diurna: não há qualquer
distinção entre os seus sonhos e a sua vigília.
Renunciou à nossa razão como o mendigo aos
nossos bens. Um e outro descobriram o caminho que leva para lá do sofrimento,
um e outro resolveram todos os nossos problemas; por isso permanecem como
modelos que não podemos seguir, salvadores sem adeptos.
Ao mesmo tempo que remexemos nos nossos
males, os dos outros deixam de nos interpelar.
Na época das falsas biografias, ninguém pode
encobrir as suas chagas sem que tentemos descobri-las e pô-las à luz do dia:
quando não conseguimos fazê-lo, afastamo-nos cheios de decepção.
E mesmo aquele que acabou na cruz não é de
maneira alguma por ter sofrido por nós que ainda conta aos nossos olhos, mas
simplesmente por ter sofrido e soltado alguns gritos tão profundos quanto
gratuitos.
Porque aquilo que veneramos nos nossos “deuses”
são as nossas derrotas embelezadas.

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