Mesquita
Machado era o único autarca que permanecia no cargo desde as primeiras eleições
de 1976
Nome escolhido para suceder ao histórico do PS não reúne o
consenso do partido e a dispersão de candidaturas à esquerda é uma dificuldade
acrescida.
O seu nome não consta de nenhum
dos cartazes políticos que por estes dias se encontram nas estradas de Braga.
Mas é incontornável falar de Mesquita Machado quando se aproximam as eleições
autárquicas. Depois de 37 anos no poder, não se estranha que quase todas as
conversas de pré-campanha vão ter ao actual presidente da câmara, a quem a
cidade e o concelho devem, para o melhor e para o pior, a sua configuração. E
nenhum dos candidatos o ignora: os discursos tentam ser alinhados com o futuro,
mas é sobretudo das últimas décadas que ainda se fala.
A saída de cena de um marcante
presidente de câmara não é caso único no país, mas o autarca de Braga era o
único "totalista" ainda em funções. Eleito pela primeira vez em 1976,
Mesquita Machado é exemplo paradigmático das consequências da lei de limitação
de mandatos, abandonando o cargo depois de ganhar dez eleições consecutivas. Esteve
quase quatro décadas no poder e agora sai de cena, acabando por não ocupar o
lugar de candidato a presidente da assembleia municipal que chegou a estar-lhe
destinado pelo PS.
Para o seu lugar, os socialistas
escolheram o actual vice-presidente da câmara, Vítor Sousa, de 54 anos, que
venceu a disputa interna frente ao actual presidente da assembleia municipal e
deputado na Assembleia da República, António Braga. Mas o partido parece ainda
não ter recuperado do duelo interno. Na semana passada, as listas para a câmara
e assembleia municipal foram aprovadas por maioria na comissão política
concelhia, não disfarçando a divisão das hostes. A contenda "deixa as suas
marcas", admite Vítor Sousa, ainda que acredite que "todos os
socialistas estão com o candidato do PS" nas eleições de 29 de Setembro.
A grande marca com que a
candidatura do PS terá que se haver é, porém, a de Mesquita Machado. O
presidente de câmara cessante tem um carisma e um reconhecimento junto da
população bracarense que o "número dois" ainda não conseguiu
granjear. Vítor Sousa apresenta o seu programa eleitoral como "um projecto
de futuro", mas fala do legado dos 37 anos anteriores e do capital de
experiência acumulado pelo partido. "Os bracarenses conhecem-nos, sabem o
que fazemos. E acho que é isso que torna esta candidatura aliciante,
fundamentalmente porque as pessoas não querem experimentalismos", afirma.
Percebe-se nas palavras de Sousa a
intenção de colocar em causa a capacidade do seu principal opositor para
assumir funções públicas pela primeira vez. A grande ameaça à continuidade do
PS na Câmara de Braga é Ricardo Rio, de 40 anos, economista. Lidera, pela
terceira vez, a coligação Juntos por Braga, que agrupa PSD, CDS e PPM. É raro
na democracia portuguesa encontrarmos um candidato por duas vezes derrotado a
voltar a candidatar-se e o próprio tem noção de que pode haver "alguma
saturação das pessoas" face à repetição da candidatura. Mas acredita que
este pode mesmo ser o seu ano.
"Nos últimos anos, foi
havendo um envolvimento crescente desta candidatura, que chega a uma área cada
vez mais alargada de protagonistas da sociedade bracarense", acredita
Ricardo Rio, que espera também poder capitalizar o efeito do desgaste da longa
governação socialista na cidade.
Multiplicação de candidatos
Há quatro anos, o PS ganhou a
Câmara de Braga com uma vantagem curta de 2726 votos num universo de mais de
150 mil eleitores. Os 44,83% alcançados valeram ao partido a eleição de seis
vereadores e a manutenção da maioria absoluta. Os restantes cinco eleitos para
o órgão autárquico concorreram em lista da coligação Juntos por Braga. As
previsões quanto ao vencedor serão sempre arriscadas, até porque o número de
eleitores subiu quase 6%, o que é suficiente para baralhar as contas. Certo é
que a contenda será renhida.
Para desequilibrar ainda mais os
prognósticos em Braga, há um novo elemento na equação: o surgimento da
candidatura independente Cidadania em Movimento, que, apesar de ter raízes à
esquerda, pode disputar o eleitorado do centro, especialmente em meio urbano.
Na lista há militantes do tempo da
fundação do PS local, casos de José Manuel Barbosa e José Manuel Tarroso Gomes,
bem como autarcas da CDU e do BE (3,89% em 2009), partido que não apresenta
lista em Braga e dá um apoio discreto à candidatura. A estes apoiantes
juntam-se a de vários independentes com nome na cidade em movimentos cívicos e
culturais, e um conjunto alargado de professores da Universidade do Minho (UM),
entre os quais está Manuel Carlos Silva, que encabeça a lista à assembleia
municipal pelo Cidadania em Movimento.
Com tantos veteranos da política
bracarenses, acabou por ser surpreendente a escolha da cabeça de lista
independente. A candidatura à Câmara de Braga é liderada por Inês Barbosa,
activista e investigadora do Instituto de Educação da UM. "Sinto-me muito
honrada e estou bem acompanhada por pessoas com diferentes idades, mas temos
uma ideia comum de cidade", comenta a candidata, que diz ter sentido
"uma enorme receptividade das pessoas" nos primeiros contactos com o
eleitorado. O objectivo da candidatura independente é fazer eleger pelo menos
um vereador e evitar uma maioria absoluta do PS ou da coligação de direita, não
se comprometendo, para já, a viabilizar nenhuma das duas. "Nenhuma das
duas candidaturas nos agrada", sublinha.
Inês Barbosa tem 29 anos, menos um
do que o candidato da CDU, Carlos Almeida. Num concelho tradicionalmente
conservador, a esquerda apresenta dois jovens como candidatos a um lugar na
câmara. Quando ambos nasceram, já Mesquita Machado liderava num segundo mandato.
Independentes e CDU partilham também o objectivo de fazer eleger um vereador -
algo que a coligação entre comunistas e "verdes" já conseguiu em 1997
e 2001. Mas para isso, Carlos Almeida, licenciado em Ciências da Comunicação e
funcionário do PCP, terá de fazer melhor do que os 6,29% de há quatro anos.
Caso seja eleito, o candidato
comunista promete seguir o princípio mantido pela CDU a nível nacional e
"não obstaculizar o executivo municipal", mas recusa vir a ser
"muleta" de qualquer força politica. "Temos que ter uma palavra
decisiva e uma certeza muito forte de que podemos alterar as políticas",
sustenta Almeida. Voltamos a Mesquita Machado e aos últimos 37 anos: "Não
interessa à população que viabilizemos uma câmara e permitir que essa gestão
seja feita tal e qual como tem sido até aqui. Ou eventualmente pior". A
CDU vê a saída de cena do autarca socialista como "o início de um novo
ciclo" e uma oportunidade única desde o 25 de Abril para Braga escolher
uma nova forma de fazer política.
A multiplicação de candidaturas à
esquerda pode ser uma dificuldade acrescida para o PS e, nos últimos dias antes
do prazo para apresentação das listas, surgiu mais um concorrente nesta área
política. Pela primeira vez em oito anos, o PCTP/MRPP vai apresentar-se às autárquicas,
ainda que concorra apenas à câmara municipal. "Não temos a máquina nem o
capital de outros partidos", justifica Luís Lima, de 70 anos, solicitador
aposentado. Figura histórica daquela força política na região, volta ao activo
com um fito claro: fazer da campanha um fórum para divulgar as ideias do
partido. Por isso, explica, no actual contexto político, "o poder local
tem a função de ser um contra-poder ao poder central, para ajudar a derrubar o
Governo, que deve ser o grande objectivo de qualquer força política
patriótica".
=Público=

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