Tentarei
aqui divagar acerca das provações de um povo, sobre a sua história que
desconcerta a História, sobre o seu destino que parece derivar de uma lógica
sobrenatural, onde o inaudito se mistura com a evidência, o milagre com a
necessidade.
Alguns chamam-lhe
raça, outros nação, outros tribo e alguns, ainda, Pátria.
Como é
refractário às classificações, o que de preciso se pode dizer sobre ele é
inexacto; nenhuma definição lhe convém.
Para melhor
a compreendermos, seria preciso recorrer a alguma categoria à parte, pois tudo
nele é insólito; não foi o primeiro
colonizar o Céu, a instalar aí o seu Deus? Tão impaciente a criar mitos
como a destruí-los, forjou uma religião da qual se reclama, da qual se
envergonha…
Apesar da
sua clarividência, sacrifica de boa vontade à ilusão: tem esperança, tem sempre
demasiada esperança…
Conjugação
estranha da energia e da análise, da sede e do sarcasmo.
Com tantos
inimigos, qualquer outro em seu lugar teria deposto as armas; mas ele, incapaz
de apreciar a doçura do desespero, ignorando a sua fadiga milenar, firmemente
decidido a não tirar ensinamentos das suas humilhações, nem a deduzir delas uma
regra de modéstia, um princípio de anonimato.
Prefigura a
diáspora universal: o seu passado resume o nosso futuro. Quanto mais entrevemos
o nosso porvir, mais nos aproximamos dele, e mais o evitamos; trememos todos à
ideia de ter de o igualar um dia…
“Seguireis
em breve os meus passos”, parece ele dizer-nos,
enquanto desenha por cima das nossas certezas um ponto de interrogação.
Melhor e
pior que nós, encarna ele os extremos a que aspiramos sem os alcançar: é nós
para além de nós próprios…
Como o seu
teor de absoluto ultrapassa o nosso, oferece-nos em bem e em mal a imagem ideal
das “nossas capacidades”, bem expressas em todos os “polvos” existentes, aos
quais alguns designam por corrupção.
O seu
desequilíbrio, a rotina que deste adquiriu, tornam-no um irregular, perito em
psiquiatria como em todas as espécies de terapêuticas, um teórico dos seus
próprios males: não é, como nós, anormal por acidente ou por snobismo, mas
naturalmente e sem esforço, por tradição: tal é a superioridade de um destino
genial e à escala de um povo martirizado!
Ansioso que se
orienta para os actos, doente incapaz de largar a sua presa, trata de si
próprio avançando.
Os seus
reveses não se assemelham aos nossos; mesmo na desgraça, ele continua a recusar
o conformismo. A sua história – um cisma interminável.

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