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terça-feira, 13 de agosto de 2013

«UM POVO DE SOLITÁRIOS»

Tentarei aqui divagar acerca das provações de um povo, sobre a sua história que desconcerta a História, sobre o seu destino que parece derivar de uma lógica sobrenatural, onde o inaudito se mistura com a evidência, o milagre com a necessidade.
Alguns chamam-lhe raça, outros nação, outros tribo e alguns, ainda, Pátria.
Como é refractário às classificações, o que de preciso se pode dizer sobre ele é inexacto; nenhuma definição lhe convém.
Para melhor a compreendermos, seria preciso recorrer a alguma categoria à parte, pois tudo nele é insólito; não foi o primeiro  colonizar o Céu, a instalar aí o seu Deus? Tão impaciente a criar mitos como a destruí-los, forjou uma religião da qual se reclama, da qual se envergonha…
Apesar da sua clarividência, sacrifica de boa vontade à ilusão: tem esperança, tem sempre demasiada esperança…
Conjugação estranha da energia e da análise, da sede e do sarcasmo.
Com tantos inimigos, qualquer outro em seu lugar teria deposto as armas; mas ele, incapaz de apreciar a doçura do desespero, ignorando a sua fadiga milenar, firmemente decidido a não tirar ensinamentos das suas humilhações, nem a deduzir delas uma regra de modéstia, um princípio de anonimato.
Prefigura a diáspora universal: o seu passado resume o nosso futuro. Quanto mais entrevemos o nosso porvir, mais nos aproximamos dele, e mais o evitamos; trememos todos à ideia de ter de o igualar um dia…
“Seguireis em breve os meus passos”, parece ele dizer-nos,  enquanto desenha por cima das nossas certezas um ponto de interrogação.
Melhor e pior que nós, encarna ele os extremos a que aspiramos sem os alcançar: é nós para além de nós próprios…
Como o seu teor de absoluto ultrapassa o nosso, oferece-nos em bem e em mal a imagem ideal das “nossas capacidades”, bem expressas em todos os “polvos” existentes, aos quais alguns designam por corrupção.
O seu desequilíbrio, a rotina que deste adquiriu, tornam-no um irregular, perito em psiquiatria como em todas as espécies de terapêuticas, um teórico dos seus próprios males: não é, como nós, anormal por acidente ou por snobismo, mas naturalmente e sem esforço, por tradição: tal é a superioridade de um destino genial e à escala de um povo martirizado!
Ansioso que se orienta para os actos, doente incapaz de largar a sua presa, trata de si próprio avançando.

Os seus reveses não se assemelham aos nossos; mesmo na desgraça, ele continua a recusar o conformismo. A sua história – um cisma interminável.

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