…Ele
vira-se sobre os calcanhares e desce ao longo da rampa, uma pasta debaixo do
braço, cabeça direita, com uma ligeira inclinação, como desafiando todos
quantos o seguiam com o olhar.
L´em
baixo, seus amigos, camaradas e companheiros, apertaram-lhe a mão. Depois, um
grito ouviu-se: “eleições autárquicas!”, clamor imenso, dobrado pelo eco dos
corredores, de onde pareciam sair a sombra e a frescura que agora invadiam a
zona e retraiam a do sol.
Num
instante, “o circo” encheu-se de gente que passava, de tal modo que parecia
fazer rebentar as barreiras, com uma massa de aldeões, uma formação de camisas
brancas e de vestidos vistosos, lenços de veludo nos cabelos, blusas bem recheadas e engomadas…
Sobre
um palco improvisado onde subiu o candidato, as pessoas alinham-se bem de
frente, as mãos tocando-se, uma chapada
num miúdo que ousou tocar uma flauta, pois ninguém pretendia falhar uma só das
palavras ditas pelo “palhaço sobre o palco atrás de um púlpito também ele
improvisado”, e a farândola dirigida por um tipo do Porto, cidade onde há
sempre dançadores famosos.
Alguns
estranhos e ou estrangeiros, sorriam-se benevolentes e logo prosseguiam o seu
caminho lentamente, enquanto o candidato pigarreava afinando a voz com que se
dirigiria aos presentes.
Havia
vários acólitos sobre o palco, alguns matolotes do tipo guarda-costas, para
tranquilidade do candidato, um finguelas
que melhor faria deixar-se estar sentado em casa, num dos confortáveis sofás
que a decoravam.
E
ele falou. Primeiro de mansinho, depois com uma certa “violência” na sua quase
silenciosa voz, e, finalmente deu por terminado o discurso, esperando ouvir
fortes aplausos, depois de colocar em relevo o “trabalho que fez do outro lado
do rio”, omitindo, como é óbvio, ter deixado a cidade como a mais endividada do
país.
“Olhem
lá para cima!”, ouviu-se uma voz forte e pesada pronunciaar.
“Lá
em cima”, estava o edifício da Câmara da cidade, onde o candidato pretendia
alojar-se por quatro anos, com a sua torre a meio.
Mas, no meio da multidão que ali se apinhava, havia gente que não pertencia à cidade. Tinham sido “convidados” a deslocar-se, em autocarros alugados para o efeito, só para aumentarem a audiência, dando a impressão de que o “candidato” era bem recebido e que a cidade o esperava como seu máximo autarca.
E
a farândola subia, subia, chegava quase às portas do edifício, onde o sol inda
coloria, de um amarelo claro a torre e parte da fachada principal.
O
candidato havia já descido do estrado em sua honra montado e, lentamente,
parecendo esgotado após o seu longo discurso – repleto de boas promessas – ele,
que era um degradador de templos.
Alguns
dos que aplaudiram, sentiam-se agora sedentos e todos foram convidados a molhar
a plavra, com bom vinho da região duriense, e onde algumas mulheres, fervorosas
adeptas do Porto afirmavam que com ele, o seu clube seria sempre recebido na
Câmara sempre que vencesse o campeonato.
Depois,
lentamente, assistiu-se à dispersão da “populaça”, até porque havia ainda
alguns quilómetros a percorrer, se bem que de “cu tremido” e à pala dos
contribuintes da cidade do outro lado do rio, onde outro candidato, ao que
parece, faz os seus discursos no Parque Biológico, dirigindo-se em linguagem
corrente à população que o habita.
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