“Um sismo
político”, diz o Libération. Uma decisão que
deixa o Governo “mais frágil”, atira The Wall Street Journal. Uma incursão na
imprensa internacional sobre o acórdão do Tribunal Constitucional e a resposta
do Governo português.
O anúncio
de cortes por Passos Coelho já recebeu críticas do Nobel da Economia Paul
Krugman
O Governo português fez da credibilidade externa uma arma da
estratégia do “bom aluno” da troika.
E o facto de a situação portuguesa ter passado relativamente despercebida na
imprensa internacional foi lido por alguns como um sinal de ausência de
percalços no caminho do programa de ajustamento.
Agora, a resposta do executivo ao acórdão do Tribunal
Constitucional (TC) “saltou” para os destaques e as primeiras páginas da
imprensa internacional desde sexta-feira como espelho das dificuldades do
Governo no cumprimento das metas orçamentais. Mas também como um novo episódio
de preocupação.
Da
edição europeia de The Wall Street Journal aos britânicos Financial
Timese BBC, passando pelo espanhol El
País ou pelo francês Le
Monde, os media deram eco da decisão que saiu do Palácio Ratton e
da dramatização feita pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, em torno das
consequências do“chumbo” das quatro normas orçamentais.
A
situação portuguesa foi escolhida para manchete das edições europeias desta
segunda-feira de The Wall
Street Journal e de Financial
Times. O jornal norte-americano notava o factor de o
Presidente da República ter vindo “em defesa do Governo”, mas descrevia a
posição do executivo de Passos Coelho como estando “cada vez mais frágil”.
Na
mesma linha, o jornal Financial Times faz eco das críticas internas,
nomeadamente das organizações patronais e de figuras do PSD e do CDS, aos
resultados do programa de ajustamento. E frisa que, se se considerar que o
programa está a falhar, o primeiro-ministro não pode apontar o dedo à troikapor
impor as medidas que o executivo aplicou, porque Passos, diz, afirmou-se como
um “verdeiro crente da ortodoxia orçamental defendida pela troika”.
E cita um artigo publicado em Abril do ano passado por Passos Coelho na mesma
publicação, onde este defende que o Governo está empenhado em cumprir os
objectivos do programa de assistência financeira e rejeita que as reformas
sejam uma imposição.
Para
a BBC, quem festejou a decisão do TC poderá agora voltar para a rua em
protesto contra os cortes na saúde, educação, Segurança Social e empresas
públicas anunciados como alternativa.
A
decisão que saiu do Palácio Ratton foi lida no sábado pelo francês Le
Mondecomo um “novo sinal da intolerância dos países [resgatados] às
receitas datroika”
e um facto de instabilidade para o Governo português, dado o chumbo da
“política de austeridade”. Antes um “aluno modelo da Europa e candidato
disciplinado da austeridade”, Portugal está a passar progressivamente para o
“campo dos ‘refractários’”, retrata o jornal francês.
No Libération,
a ideia era esta: “A justiça portuguesa contra a austeridade”. “A justiça
portuguesa acaba de provocar um sismo político e económico” e o TC “tomou
partido” pelos cidadãos “contra a austeridade imposta por Bruxelas” e defendida
pelo Governo.
O
diário El País salientava que a decisão do TC não
veio trazer uma verdadeira mudança de estratégia, uma vez que o Governo terá de
encontrar alternativas que, na prática, segundo o jornal, mantêm o mesmo
caminho. “A austeridade continuará a sufocar, mas de outro lado”.
Num
editorial intitulado “Austeridade inconstitucional”, o mesmo diário escrevia na
véspera: “Sanear as finanças públicas é de todo necessário, como condição para
garantir um crescimento sustentável e uma união monetária viável, mas fazê-lo
num contexto de profunda recessão e num prazo excessivamente curto é uma
manifesta provocação” à estabilidade social e às próprias instituições
europeias. E não seria preciso esperar pela decisão do TC para concluir sobre a
“inadequação técnica deste tipo de decisões [cortes nos subsídios] e da sua
inconveniência social”.
De
acordo com o diário El Mundo, que chama a atenção
em editorial para o impacto da decisão do TC, o “chumbo” coloca Portugal “à beira
do abismo” ao provocar um “conflito político e jurídico com consequências
nefastas para a Europa e, em especial, para Espanha”.
Para
o Prémio Nobel da Economia Paul Krugman, ver o Governo tentar “a cura” com mais medidas de austeridade não é uma surpresa. Mas contesta, como
tem contestado a resposta europeia à crise. E, desta vez, sobre o caso de
Portugal, deixa uma sugestão no seu blogue: “Just Say Nao”.
Já
o diário The New York Times notou que passadas apenas algumas
semanas do sobressalto com a crise bancária em Chipre, outro país estava no
centro das preocupações na moeda única: desta vez, Portugal.
=Público=

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