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quarta-feira, 10 de abril de 2013

UMA REPUBLICA DE JUIZES


José António Saraiva

O anunciado chumbo do Orçamento pelo Tribunal Constitucional é um acto perfeitamente legítimo no plano formal.

Como Cavaco Silva disse, «a Constituição não está suspensa» e nenhuma lei a pode violar.

Mas isto é uma afirmação genérica e formalista.

Se o país estivesse em guerra, por exemplo, a situação seria obrigatoriamente diferente.

Ora, acontece que, não estando Portugal em guerra, vive uma situação de  excepção, pois está intervencionado, está sob a tutela dos credores – sendo por isso obrigado a cumprir determinadas metas.

E, como disse Medina Carreira, a Constituição é muito bonita mas dela não sai dinheiro.
Além disso, há que ter em conta três coisas:

1. Muitas normas da Constituição não são preto ou branco. Podem ser interpretadas assim ou assado – e por isso as decisões do TC são normalmente tomadas por maioria e não por unanimidade. Há uma espécie de terra de ninguém em variadíssimas disposições da Constituição que dá margem aos juízes para votarem num sentido ou noutro;

2. Sendo assim, essa votação tem necessariamente que ver com factores subjectivos, sendo influenciada por razões de ordem ideológica (ou outra, inclusive pessoal);

3. Nas suas decisões, os juízes não podem ignorar as consequências do chumbo – para que não contribuam para criar uma situação ainda mais gravosa para os cidadãos do que aquela que o chumbo se propõe evitar.

Este ponto é muito importante.

Claro que, se as questões se colocassem a preto e branco, o Tribunal Constitucional não teria outro remédio senão chumbar certas normas violadoras da Constituição, mesmo sabendo que isso teria efeitos perversos; mas, não sendo assim, os juízes não podem deixar de ponderar os danos colaterais das suas decisões.

Imaginemos que o chumbo do TC é uma bomba que tem de ser atirada para determinado local por boas razões; mas quem toma a decisão não pode ignorar os estragos que a bomba vai causar, avaliando os prós e os contras.

Um bom exemplo ocorreu, aliás, no ano passado.

O chumbo do corte dos subsídios à Função Pública conduziu à questão da TSU, que por sua vez desencadeou gigantescas manifestações de protesto e confrontos com a Polícia, iniciando um período nunca visto de contestação social.
Portugal entrou desnecessariamente em convulsão política, com efeitos negativos para todos, fossem ou não funcionários públicos.

Nessa altura, como todos se recordam, os argumentos do TC para o chumbo não foram apenas jurídicos – foram também políticos.

E isso leva a perguntar: como podem argumentos ‘políticos’ de um órgão não eleito sobrepor-se aos da Assembleia da República – que, no texto da Constituição, é a própria fonte da legitimidade do poder político?

O facto de os juízes do Tribunal Constitucional serem escolhidos por indicação partidária faz dele um órgão que, embora judicial, é politizado.

Dos 13 juízes, 10 são indicados pelos partidos e 3 são cooptados pelos colegas – pelo que nas suas decisões há uma componente política, que depois se veste de roupagens jurídicas.

Podemos assim estar a caminhar para uma ‘república dos juízes’, que decidem o que o Governo pode e não pode fazer.

Temo que em Portugal se crie uma situação de ingovernabilidade.

Pode acontecer que, através do Tribunal Constitucional, a oposição comece a conseguir o que, através do Parlamento, não conseguiu.

Há um órgão acima do Parlamento, com motivações também políticas, que ‘corrige’ as decisões da maioria.

Os juízes-políticos do TC têm a faca e o queijo na mão – e podem bloquear, se quiserem, a acção governativa.
O chumbo anunciado do Orçamento impede objectivamente o Governo de fazer aquilo a que se comprometeu com os credores externos.

O que significa que o Tribunal Constitucional vai abrir uma crise que provavelmente terá consequências muito mais devastadoras para os portugueses do que aquelas que diz ter pretendido evitar.

A diferença é que, enquanto o Governo ou o Presidente podem ser responsabilizados pelo que fazem ou dizem, o TC não pode ser responsabilizado por nada.

L. A. V.

PS: Este senhor arquitecto e jornalista defende, portanto, que se «rasgue a Constituição» e se queimem todos os bocados de papel para que dela só restem as cinzas.

É assim que falam todos os que têm e sempre viveram de “barriga cheia”, sem nada se importarem com o bem o mal-estar dos seus concidadãos.

Infelizmente, o país tem ainda muito terreno para desbravar antes que se regresse ao vergonhoso passado em que se viveu.



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